BOM HUMOR
Marco Aurélio Baggio
Ai de mim se não fosse eu.
Já na
estrada para Curvelo, vimos, enorme, no vidro traseiro de um desgastado
Monza-jóia, este dístico genial. Óbvio.
A dura,
cruel e contundente realidade, batendo de frente, diariamente, em nossa cara,
nos fazendo (quase) sentir dó de nós mesmos.
Ai de mi
Se não me queres
Ai de mi
Canta o
solerte bolero.
Então,
vivendo em um mundo personalista, individualista, não solidário, no qual nós,
sujeitos, não obtemos refresco nem colher de chá, temos, como o anônimo feliz
possuidor do Monza, que tratar de cuidar, acurada e denodadamente, de nós
mesmos. Sem remissão...
IRONIA: a semente do sabor
A todo momento, emprega-se a linguagem figurada, seja na
norma culta, seja na forma popular. A linguagem coloquial utiliza
constantemente, e muitas vezes inconscientemente, figuras de linguagem ou de
pensamento de grande valor significativo. Entre elas, encontra-se a ironia.
Como metáfora, ela é capaz de
articular aspectos de idéias distintas. Tem a capacidade de nos surpreender.
Liberta-nos da presunção dos ideólogos e faz brilhar a chama do intelecto. Ela
nos catapulta para além da mediocridade dos pensamentos já pensados. A ironia é
uma cunha que penetra no viés dos sentimentos humanos. Faz cócegas em nosso
psiquismo, estimulando-nos a emitir juízos.
Sem a ironia, ficaríamos chafurdados no pântano enganoso
daqueles que acreditam que a linguagem pensa, nós não.
A presença da ironia na literatura tem por função demonstrar os contrastes, os
descompassos e as incongruências que há entre as coisas.
A ironia indica as contradições que
descolam uma verdade de outra, permitindo o deslizamento do sentido ao longo de
uma seqüência lingüística. Pode ter uma função catártica, quase sempre
humorística e engraçada. Também pode ter uma finalidade pedagógica ou mesmo
filosófica, quando então, etimologicamente, ironia quer significar “ação de
interrogar fingindo ignorância, dissimulando não-saber”, acicatando o
interlocutor a prosseguir em sua argumentação até cair em contradição e, assim,
ter de constatar uma outra verdade maior.
O que nos interessa é a ironia
vivaz, sutil, insinuante, que introduz em nossa mente o delicado fluir de
múltiplos sentidos pelos quais transitam as relações humanas e as
transformações por que passam as coisas do mundo. Naturalmente, a ironia pode
assumir aspectos diferentes, dependendo da intenção do emissor.
A ironia tingida de desdém ou
menosprezo é a zombaria, a caçoada ou
troça, o motejo, o remoque, o gracejo. É irmã do escárnio.
Já a ironia com intenção ultrajante,
desmoralizante, tem por nome o escracho,
a esculachação, a esculhambação.
O deboche é a ironia acerba, que se refere a uma situação de vida
dissoluta, corrompida, acintosa ou pervertida.
A ironia distingue-se da anedota. Esta refere-se a fato menor,
pitoresco ou jocoso, sobre algum acontecimento curioso. Etimologicamente, anékdota, proveniente do grego, significa
“coisas ou fatos não publicados, inéditos, mas cheios de interesse”. Anedoto é o “não publicado”. Com o
passar do tempo, o termo assumiu outras conotações.
A piada é uma
história curta, com final surpreendente, temperada, às vezes, com obscenidade,
escatologia ou algo picante, cujo objetivo explícito é provocar o riso.
Chalaça
é o dito espirituoso, gracejo, motejo ou zombaria, às vezes de mau gosto. É a
popular “gozeira”, que geralmente deixa irritado o interlocutor.
O chiste é o dito espirituoso, eivado de fino humor. É a pilhéria, a
facécia. Engraçado e gracioso, o chiste captura a junção da ambigüidade das
frases, exibindo suas contradições. É sempre lúdico, brincalhão.
De todas essas formas de comunicação, em que está presente o
objetivo de provocar o adversário, a ironia aparece como a figura mais
interessante, mais instigante e, certamente, de maior efeito. Pela sua
entoação, pelo seu contexto, pode ser um meio ferino de insultar o interlocutor
e alcançar a reação desejada. À ironia cáustica, dilacerante, dá-se o nome de sarcasmo.
Ironia é dizer claramente uma coisa, querendo significar
outra. É afirmar uma verdade facilmente aceitável e, sutilmente, insinuar uma
outra verdade, menos palatável, mas quase igualmente irrefutável.
A ironia é
o tempero da vida. Ela é o componente diferencial que dá perenidade à alta
literatura. Ser irônico é ser vivaz, farfalhante, inteligente.
Ironia é
algo coscuvilhante que se passa em nosso interior psíquico, movendo-nos para
adiante. É apercepção incisiva, porém sutil e eficaz, na qual desconcordamos de
um algo de verdade que se passa em nosso interior.
Insinue sua
ignorância sob algo óbvio, tal qual Sócrates se tornou craque em fazê-lo. Com
isso, ele capturava a atenção e a subjetividade do interlocutor, que emitira
uma afirmação. Pronto: desabava a armadilha. Sócrates contestava-o a partir
daquilo que o oponente havia dito. Com espiritualidade e argúcia, desenvolvia
argumentos de acordo com a maiêutica*, que expandia as possibilidades conceituais do tema. Assim, alcançava-se
um pensamento novo, dissonante, irônico, altamente interessante, que atingia
então novos níveis de sabedoria.
Ironia
tornou-se algo difícil de ser apreciado em um mundo onde prevalecem a
contracultura e os teóricos do Ressentimento, com sua monomania de que existe
uma “energia social” vigorando no Historicismo, na Rede Mundial de Informações.
No entanto,
tudo é ironia nessa nova era de guerra religiosa e econômica e de terror por
toda parte.
Uma
pseudo-objetividade canhestra parece querer tomar conta de todos e de tudo,
oferecendo em profusão pensamentos avelhantados e informações aos bilhões, sem
nenhum processamento hierárquico de valor.
Como
mecanismo de defesa de alta sensibilidade, a ironia é o sal da vida, o tempero
da sensaboria do cotidiano. Ela mantém-se quase sempre como o hábil indicador
que traça o caminho em direção à grandeza transcendental da sabedoria.
Largamente
empregada por grandes autores, a ironia situa-se em lugar especial entre as
figuras de estilo.“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis;
nada menos.” 5:534 “Existem
muitas ervas diversas, todas se misturam sob o nome de salada.” (Montaigne, Essais).6
Jonathan Swift é o irônico satirista
do grotesco, que derrete as superfícies e as aparências para expor a crua
realidade dos seres humanos. O verdadeiro sentido do que afirma transparece ao
longo do arrazoado do seu texto.
A ironia
permitiu a Bocaccio tomar como tema o próprio ato de narrar.
Chaucer
apercebeu-se da ironia como uma nova espécie de amor pelo mundo e pelos loucos
picarescos que o enchiam de vida. Sua personagem, a mulher de Bath, tinha como
lema: “Boca insaciável requer rabo insaciável.” 3:136
Em Beckett,
encontramos: “As nádegas quentes e amanteigadas da Miss Cuniham?” 3:244
Ou, parafraseando Qoholet (Coélet),
o pregador do Eclesiastes: “O sol brilhou, sem alternativas, sobre nada de
novo.” 3:243
“Todos cometemos erros, até Deus.
Fixar os judeus na Rússia, onde são atormentados? Por que não na Suíça,
cercados de lagos de primeira classe, ar de montanha e nada além dos
franceses?” (Isaac Babel).3:814
A ironia é politicamente incorreta.
Por isso mesmo, é melhor e mais saborosa, uma vez que traz em seu bojo uma
porção maior da verdade. Ela corre solta, debochosa, para além dos bem-comportados
postulados reducionistas dos círculos acadêmicos e jornalísticos, hoje
governados pelo puritanismo feminista. Isso porque a ironia quase consegue
abarcar o conjunto de componentes presentes nas coisas. Tudo é e não é, mas
pode ser que venha a ser.
Tomem-se, por exemplo, os versos
do grande compositor popular brasileiro Aldir Blanc:
Manco nunca perde o rebolado. 1:240
Pra ser sem-vergonha, basta ser decente
Ou esse
monumento, que serve de epitáfio:
Eu
baderneiro,
me tornei cavaleiro,
malandramente,
pelos caminhos.
Meu companheiro tá armado até os dentes
Millôr
Fernandes alerta: “A ironia do mundo é que toda pobreza é hereditária. Já a riqueza,
quase nunca.” 4:265
Maior
cultuador da ironia fina, muitas vezes de fundo pessimista, Machado de Assis
está sempre a surpreender com seus chistes, com sua verdade chocante. A
dedicatória em Memórias póstumas de Brás
Cubas 5 dá uma ligeira idéia daquilo que o leitor encontrará no
texto:
Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como
saudosa lembrança estas MEMÓRIAS PÓSTUMAS.
O mesmo
Brás Cubas parece rir de suas decepções, como se a vida não fosse suportável
sem uma dose de humor, ainda que seja contra o próprio autor da ironia.
O fecho de Dom Casmurro traduz uma ironia que esconde a dor do marido traído,
apaixonado pela mulher de “olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada”:
E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das
sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior
amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também quis o destino que acabassem
juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve! Vamos à “História dos
Subúrbios.” 5:942
Os
personagens de Proust são, essencialmente, gênios cômicos; como tal, dão-nos a
opção de acreditar que a verdade é tão
engraçada quanto cruel. 3:176
Henry James escreve:
Se Deus existe, é por causa de nosso apego à idéia de imortalidade.
Queremos uma garantia qualquer de que haja uma imortalidade de qualquer
maneira. A religião, seja ela qual for, significa imortalidade. Se os nossos
ideais só recebem atenção na eternidade, não vejo por que não delegar-lhes a
supervisão a terceiros.3:770
Quanto às eloqüentes trombetas de
Alá, a resposta shakespeariana
poderia ser: “Ora, sim, por brincadeira, com certeza.” 3:360
Vivemos em
um momento de terrível ironia, quando uma cultura fracassa em todos os seus
aspectos conceituais – na filosofia, na política, na religião, na psicanálise,
na ciência e até na globalização – vê-se compelida a se tornar literária, ao
estilo da antiga Alexandria. 3
Nosso mais sofisticado ironista nos
mimoseou com a preciosidade:
Tudo é
incauto e pseudo. As flores sou eu não meditando. Mesmo o de hoje, é um dia que
comprei fiado. 7:168
Segundo Harold Bloom, “destituída de ironia, a
leitura perde, a um só tempo, o propósito e a capacidade de surpreender.” 2:23
Ironizar é preciso. O humor é um dispositivo muito
eficaz para amortecer o mau hálito da vida.
Referências
1.
BLANC, Aldir. Porta de tinturaria.
Rio de Janeiro: Codecri, 1981.
2.
BLOOM, Harold. Como e por que ler.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
3.
___________ . Gênio: os 100
autores mais criativos da história da literatura. Rio de Janeiro: Objetiva,
2003.
4.
FERNANDES, Millôr. Millôr
definitivo: a Bíblia do caos. Porto Alegre: L &PM, 1994.
5.
MACHADO DE ASSIS, José Maria. Obras
completas. 3 vols., Rio de Janeiro: Aguilar, 1962.
6.
MONTAIGNE, Michel Eyquem. Essais.
Paris: Nelson, Éditeurs, s/d.
7.
ROSA, João Guimarães. Tutaméia.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
O cerne do humor.
Uma piada
se faz com um enunciado breve porém incisivo, que chama a atenção dos
circunstantes. Logo é seguida por uma ou duas frases performáticas, proferidas
como mandatos que se impõem à mente dos interlocutores, criando uma seqüência
de encadeamentos lógicos que induz determinada expectativa.
Um cenário
é esboçado, expondo uma situação humana corriqueira. Cria-se um clima, um pathós ou uma intenção que irmana em
sintonia o psiquismo de todos. Alguns decalques podem ser acrescentados para
bordar o relato. Mas não são imprescindíveis.
De repente,
quem está contando a anedota causa uma fratura. Rompe a seqüência. Quebra o
raciocínio esperado. Acontece uma inesperada, surpreendente reviravolta no
relato. Como se fora uma cambalhota, um revertério. Pura pirlimpsiquice. Todos
caem de bunda no chão: palhaçada cômica.
Introduz-se
com força e com imperiosidade o estúrdio, o insólito, o jamais pensado, o raro,
aquilo que nunca aconteceu. Um efeito de absurdidade ou de estranheza é seguido
pela percepção, em elaboração secundária, de que a pirueta mental, o revolver
com o inesperado incide sobre o psiquismo dos presentes, produzindo um efeito de
surpresa e de inteligência, fazendo cócegas em seus neurônios.
Uma vulgar
descarga de dopamina acontece provocando o riso - ou a gargalhada -, e a
inefável sensação de bem-estar. É quando ocorre a epifania do pathós irônico ou engraçado. Por isso
sabe-se que rir é o melhor remédio para compassar e se vingar das agruras da
vida.
O cômico, o
hilário, o drolático são contagiosos. E logo acendem o apetite de querer
mais... Daí o rosário de piadas que costuma-se rezar nos ambientes onde
prevalece o vagar e o amável convívio. Contar piadas é ouvi-las em curtição, é
melhor do que falar dos 32 trilhões de dólares em derivativos que se
evaporaram, queixar-se de doenças, de desastres, de corrupção, de pecados, de
deus, de política, de canalhices ou comentar sobre as mulheres que não estamos
comendo.
A facécia, a blague, a chalaça, o deboche
pode possuir um longo enredo descritivo, cheio de meandros ou de babados,
elaborados enchendo lingüiça e preenchendo o tempo e o papel. Mas não precisa.
O cerne, o
âmago do deboche é sempre constituído por duas ou três frases performativas.
Quanto mais insólito ou inesperado for o desfecho, mais saborosa é a piada.
Aprendi que
o humor cheio de graça pode ser curto, sintético, sucinto. Tal qual uma porrada
em jab. Daí ser desejável contar
piadas bastante curtas.
O máximo de
arte é obtido pela concisão da anedota que se expressa em frase única.
Manco nunca perde o rebolado...
Mulheres, comam homens de fibra...
Macho não engole sapos, come
pererecas...
Psicanalista não aceita conversa
fiada.
Sexo grátis, amor a combinar...
Vagina é um canal macio que une o
útero ao agradável.
Sexo sujo? Só quando é muito bem
feito...
Enfermeiro argentino foi expulso do
banco de esperma por beber em serviço.
Menino de dez anos ao flagrar os
pais fazendo um 69 exclama: - E vocês querem me levar ao psiquiatra só porque
eu como as unhas!
Peido de rei é gás nobre?
A piada explicita o curioso, o
instigante, o abusado, o sacana ou o corruptor do bem posto. Toda anedota é
desavergonhada e desalinhavada.
Não existe
anedota ou piada saborosa no universo puritano norte-americano do politicamente
correto. O gracejo possui sempre um sujeito que fala e propõe um tema. Uma ou
mais pessoas que ouvem e perguntam, fazendo escada pela qual sobe o humor. Os
circunstantes fazem papel de bobos ou de incautos, na alegre expectativa de
obter uma boa conclusão do relato. São eles que terão suas expectativas
defraudadas, sofrerão o tombo, a fratura. Mas obterão a alegria bem humorada do
desfecho hilário bem apanhado, inteligente e sarcástico. A ironia é o sal que
tempera a salada da ridicularia da vida de todos nós...
O CÔMICO
Para Umberto Eco, o cômico está adscrito ao tempo imediato
de interação. Comete-se o cômico mediante a transgreção de uma regra que não è
citada mas permanece ímplicita. Um
outro, ator ou interlocutor, que não nos inspira maior respeito, perfaz uma
atuação em súbita quebra de normas consensuais.Daí nos deliciamos ao vê-la
violada, sem culpa ou risco nenhum para nós. Assim, uma cena explícita na qual
a norma é fraturada, violada sem motivos, se torna hilária. O cômico é
liberatório e subversivo porque ousa
transgredir a forma usual de conduta esperada.
O humor
desperta o inaudito, o impossível,
criando um novo que faz cócegas em nossos neurônios.
Amor de sereia
“O nome
dela é Iara.
Morena, meã
dindinha, 35 anos, nem feia nem bonita, corpo desfrutável, programadora de
eventos. Conheci numa roda de samba. Dança bem, com remelexo. Despertou meus
brios de macho conquistador. Julguei ser presa fácil. Fez visagem, me passou
rasteira. Prometeu para depois. Bobo, besta, cai no seu anzol. Enfunado de
desejo, armei meu jogo. Peguei um avião em Teófilo Otoni às 18 horas, desci em
Campinas às 20 horas. Aluguei um carro e parti para Americana. Bati na
campainha de seu apartamento às 22:30, coração bão, opresso, taqui e
adrenérgico. E se ela não estiver? E se estiver acompanhada? De um namorado ou
amante, que seja? Homem quando quer é babão, é bobão, é atrevido, é galão.
Ela atendeu
espantada e logo, eufórica: - Você, Oscar? O que veio fazer aqui?
- Vim te
ver, te visitar... Não te disse que viria?
- Então
você é dos que cumprem suas promessas? Entre, assente, seja bem vindo...
De penhoar, cabelos fascinantemente
soltos, desgrenhados, chinelinhos de quarto, mal dera tempo de borrocar um
batom enquanto ele subia os três lances de escada.
- Um café?
Que bobagem. Uma cerveja? Também não... você gosta é de uísque... tenho um 12
anos: Old Parr. Serviu uns tremoços. Colocou um Djavan, abaixou a luz e deram
início aos trabalhos eróticos.
Ele, voraz
garanhão de 1.85 metro, moreno de sorriso escanchado, logo estava de pau tenso.
Experimentado, na sua 107ª mulher, pressuroso, num átimo pensou: “Tá na
caçapa.”
E beija
daqui, mão ali e acolá, cometas percorrendo os céus das bocas, arfantes entre
ais e uis, esfrega em cima, lambe o pescoço, olhares languidos... Tudo no
embalo do tesão.
À caça a
desabotuadura do sutiã, enfim dois magníficos seios libertos da contenção,
passados para outras mãos massageadoras. Os trabalhos de amor prosperam naquela
volúpia que mantém acessos intenção e gesto. Da primeira para a segunda dose,
de Djavan para Chico Buarque, daí para Maysa, a qüinquagésima massagem nos
peitos, o vigésimo sétimo beijo “desentope pia.” A quarta tentativa de enfiar a
mão esquerda pelo rego da polpa...
E ela, sestrosa, gentil, dura: - Ai,
não!
Quis
forçar, corpanzil 3/2 maior que o dela. E ela, languida, porém imperativa: -
Não!... Tira a mão daí!
Merda! Pensou ele. Continuou nas
preliminares. Olhou o relógio: 2 e meia da madrugada.
- Então com
o que, senhor seu Oscar, o senhor é casado?
– Sim, sou... conteve-se para não
enveredar por aquele papo cretino ‘de que era incompreendido, que seu casamento
ia mal, que ele e Vera há meses não trepavam...’ Sabia que com Iara isso não ia
colar.
Ela então
cresceu, subiu nas tamancas, venceu o jogo: - Comigo o que o senhor vai obter
é, no máximo isso: amor de sereia. Caricias e indecências libertinas só da
cintura para cima...
Puta que me
pariu, pensou ele. Em que fria fui entrar. Atravessei o Brasil só para isso?
Não se deu por vencido, no entanto. Lascou mais uns três ou quatro argumentos
apelativos, já convicto que eram tiros de festim.
E ela,
Iara, impávida, colosso, glorial, assegurada, mandou ver sua vingança de coroa
mais de uma vez seduzida e abandonada.
- Minha
religião não permite que eu transe com um homem casado. Mesmo que seja um homem
tão gentil e carinhoso como você. Gostei de sua estampa desde o primeiro dia em
que te conheci. E estou comovida, encantada mesmo, com sua visita súbita, as
flores, o cartão, a caixa de bombons Garoto. Parece até que sou uma brega
argentina, não é? Mas não, sempre condenei minhas amigas que saem e dão para
homens casados. De mais a mais, por vituperá-las, não posso dar para você.
- Só amor
de sereia? gemeu ele.
Falso,
vendido sussurrou: Bem, só isso já valeu a viagem, foi ótimo...
E foi assim, mais do mesmo, até às 4
horas da matina.
Ela arrumou
a cama de hóspede. Dormiram. Às 11 horas ele acordou, Café da manhã com romã e
abacaxi. Despediu-se com mais um ardoroso falso beijo. Atravessou São Paulo.
Embarcou em Campinas, desceu em Teófilo Otoni.
- Como foi
a viagem em São Paulo, beim? Sonsa, quis saber Vera.
- Ah? São
Paulo? Legal... tive bons contatos... resolvi o que precisava para a
empresa...”
Eu, seu
terapeuta:
- Amor de sereia? Desconhecia
essa...
- Mas hoje
a noite, ela está na cidade, já marcamos encontro, vou com tudo, cheio de
esperanças, vou quebrar as resistências dela!
Não tive
mais notícias deles. Eu aposto que ele não vai comê-la. Mulher que nega, não
sabe não, tem uma coisa de menos no seu coração.
De mais a
mais, o superego das mulheres é lasso e perverso para tantas putarias mas é
extremamente rígido e empedernido para tantas poucas coisas.
Quando a
mulher entesta de defender uma tese pseudo moral, ela refulge de vanglória,
torna-se impenitente e invulnerável, brandindo uma prescrição moral “correta”.
É como se dissesse: Dou para qualquer um, menos para você, simpático Don Juan
casado. Semana que vem vou saber no que deu esse charivari.
Você
apostaria diferente de mim? Mulher possuída por uma tese na cabeça, torna-se
guardiã da moral e dos velhos costumes. A conferir.
Tango Tropical.
Carlos amava Dora e era por ela
correspondido. Casaram-se. Foram felizes e infelizes, misturadamente. Com o
tempo, Carlos percebeu que o casamento não resolvera seu desejo sexual. Dora,
por sua vez, sentira que não preenchera seus anseios românticos. Um dia, Carlos
se envolveu com Lia que também partilhava o mesmo drama.
Os dois
casamentos se equilibraram num tripé, assim misturados, por uma dúzia de anos.
Por vicissitudes várias, um dos casais separou-se antes. Quem era amante,
continuou tão somente a sê-lo. O mundo gira e a vida roda.
Carlos,
macho, durão, após muitos anos, enternece-se e se envolve mais e mais com Lia.
Ambos passam um ano sensacional num conluio secreto. Aí um dia, o acerto
desanda. O telefone toca, a voz dela é apreensiva: - Preciso muito falar com você... Hoje ainda...
Nunca houvera
disso. Ele intuiu: - Deu xabu.
No
encontro, ela embargada diz:
- Estou te deixando. Sinfrônio... eu
te disse... andava me mandando poemas e flores e bombons...
- Mas e o
nosso amor Lia?
- Não tem
“mas” não. Ele disse que quer viver comigo, ter uma relação plena, total,
completa, entende? Garantiu que não quer ter só um “caso” comigo. Eu mereço
isso, Carlos. Você compreende? Ainda quero ser feliz e não ficar nessa relação
clandestina, escorraçada, com você, essa coisa esquisita que não ata nem desata...
- Mas
querida, e nossos planos? Nossa cumplicidade, como fica?
- Tomei
decisão. Eu que sempre fui uma Maria-vai-com-as-outras. Desisti radicalmente de
nós dois. Eu te tenho na maior consideração, sei que você me ama e é meu
verdadeiro amigo. E continuará sendo. Mas chega. Quero viver outras emoções,
experimentar outros temperos...
Sinfrônio disse que eu sou a mulher da vida dele...
- Mas, e eu
como fico nisso?
- Você se
vira. Tem a sua Dora. Ou Rita. Ou Izaltina, sei lá...
Carlos
engole um sapo seco. Percebe o tom peremptório de sua ex-doce amante. Só
constata:
- Então, eu
te perdi?
- Perdeu.
Você me deixou muito jogada ultimamente...
É fato. Ele
se tornara rotineiro, previsível, como de regra, são os maridos. Para fato
consumado o que resta é acionar o repertório das racionalizações.
- Vou
chamar no pio, como ensinou Lalino Salãthiel. Esse cara não vai se agüentar.
Homem que promete muito, como Dom Juan, desencosta e cai num par de
meses...
- Ela vai
experimentar e não vai gostar...
Logo Carlos
percebe que desse “Porto”, ela já provou e gostou...
– Bem, quem sabe, talvez um dia...
elas sempre voltam. Amor de pica é o que fica...
Consola-se.
Logo lembra que a infidelidade não é dela ou dele: nós simplesmente nos
enfastiamos de nossos amores. Um desaparta antes. É regra. É matemático.
Os dias
passam cheios de chumbo até que, certa manhã, ele sonha que uma mulher diáfana,
insinuante, surgiu da bruma e de graça, a ele se entregou. Depois, de graça,
ela se foi...
Carlos
aprendera que tempo de casa, grau de afinidade, juras, intensidade de
envolvimento sexual, cumplicidade de maledicências sobre amigos comuns,
projetos compartilháveis para o futuro, tudo isso tem valor relativo. Nada
segura a relação contra o cansaço de um quando um terceiro investe com uma
“proposta cheia”. Mesmo, que sabidamente, inconsistente e mentirosa.
Lia não era
diferente. Sob pressão, dera de jogar tudo para o alto e o que apurasse seria
saldo.
Mulher
arrebatada em paixão, depois de bem treinada como fêmea e bem constituída como
mulher, pula do trapézio sem rede de proteção. Mulheres são loucas pelo amor.
Durante
meses a relação Lia - Sinfrônio dará muito certo. As rodas sociais da cidade
primeiro se escandalizaram, depois absorveram e abençoaram o lindo casal. Até
que um dia, Sinfrônio - Don Juan, encontra W. C. Fields, aquele beberrão cínico
que o admoestou tarde demais:
Nunca tente impressionar muito uma mulher porque, se você fizer isso,
ela esperará que você mantenha aquele alto padrão pelo resto da vida.
Quando
enfim, ela volta, Lia já é outra. E Carlos também. Comem aquele mexido do que
sobrou de suas antigas refeições e bebem aquele café requentado. Alguma coisa
ainda se encontra. Insossa, embora.
Nesse
interregno, Carlos aprendera com Ambrose Bierce que:
Dá-se melhor com as mulheres aquele que sabe se dar bem sem elas.
Portanto, a
mulher que você treina em amor, sexo, romance e convívio, um dia irá embora,
seduzida por um cara que lhe diz psilones na orelha, compõe versos e manda
“corbelhas” de flores com devoção.
Ninguém tem
garantia. Vive-se por precisão, não por boniteza.
Mas também,
que alívio sair limpo de uma boa velha confortável relação amorosa, sem nenhuma
culpa, sendo abandonado e ficando com as glórias de ainda poder lamentar. Entre
a quarta e a quinta década da maturidade de vida, a experiência mostra que é
melhor ser abandonado por um antigo querido amor do que causar a revolta e a
amargura ao abandoná-la.
Para cada
ilusão que se vai, há sempre outra rondando a porta. O amor é como o câncer:
sempre dá recidiva...
Como ensina
o capiau mineiro:
Em terra de Zé Prequeté, homi que é homi não bobeia. Pra isso é preciso ter sempre mais
de uma muié...
Dora e Lia
amavam Carlos que amava toda a quadrilha... Essa foi sua provisória garantia. E
assim foi vivendo galhardamente, desiludido e desmisturado...
Para que serve um
homem?
Intrigou-me outro dia saber o que as
mulheres querem do homem. Qual é a serventia deles para elas? No mínimo o que
elas de fato obtêm ao conviver conosco? Que vantagens Maria leva? Passei a
interpelar meus amigos de ambos os sexos e arrolei os seguintes fatos.
Homem serve para trocar lâmpada,
para trocar pneu de carro, desentupir privada, consertar torneira pingando. É prestimoso ao abrir a tampa de
lata de cerveja, poupando assim as unhas bem cuidadas de sua mulher.
Serve para
abrir a porta do carro, abrir latas de sardinha, abrir tampas de vidro na
cozinha. Homem serve ainda para dar respaldo/proteção/garantia e acolhida em
seu alto e forte ombro à mulher sozinha, perdida e fragilizada.
Serve para
escrever e ofertar belos cartões com mensagens românticas falsas.
Homem serve
para levar a mulher da hora aos lugares mais tresbundantes e mais exclusivos,
que só ele tem acesso.
Serve para
levar para jantar em restaurante caro, para pagar as contas de supérfluos,
serve para oferecer jóias, flores, sapatos e bombons.
Homem tem
serventia para dar à sua amada mulher a ilusão de que ela comanda a relação e
que ele vive “exclusivamente” para fazê-la “feliz”. E “quase” que ele consegue. Pelo menos durante algum
tempo...
Homem serve
pela amizade e pelo companheirismo que se estabelece com sua mulher. Ambos
tornam-se cúmplices diante da dureza da vida.
Vamos transformar o mundo numa trepação só,
me disse gentil senhora. Homem está com
você e mais duas, informou-me outra dama da sociedade.
Homem serve
como mentor e referência mais abalizada para lidar com a realidade concreta das
coisas todas do mundo externo. Nesse campo, o homem, de regra, é mais treinado
e mais habilitado do que ela, a mulher.
Homem serve
para ensinar a mulher as muitas outras coisas da realidade e do mundo
externo que ele sabe mais do que ela.
Serve ainda
para mijar fora do vaso e emporcalhar o chão do banheiro. Parece que, pelo fato
da cabeça de baixo ter apenas um olhinho, eles quase nunca acertam aquele
enorme buraco oval do vaso sanitário. Conforme se diz em Santana do Pirapama,
homem velho serve para fazer apodrecer o bico da botina.
Uma
utilidade universal que toda mulher casada reclama é que o homem serve para
espalhar as páginas de jornal pela casa toda.
Também ele
é útil para deixar a toalha molhada após o banho no chão ou em cima da cama.
Definitivamente,
as mulheres sabem que homem não presta para discutir a “relação” nem para
conversar “borrachinhas”. Frequentemente quando elas estão falando eles fazem
aquela cara de quem está olhando a paisagem. E se interpelados eles dizem,
sonsos:
- Hein?, o quê?, o que foi, beemm?...
Jamais
utilize um homem como seu confidente, a menos que ele seja bicha ou amante. Sim
por que:
Dormimos juntos/sonhos separados/
que nos não vamos confessar de modo algum...
Homem serve
para suportar os faniquitos de sua histérica mulher, colocando-a no colo,
deixando ela se esparrodar em pleno piti, dando um show de descarga, terminando
naquele chilique em que é campeã.
Ele tolera seu siricutico, mal escuta suas lamurias,
adotando uma atitude cordata e calada,e ainda, muitas vezes, fazendo aquela
indefectível cara de quem está mirando o porvir...
De
repente, ele se sente de “saco cheio” e fica bicanca. É quando então explode
num esporro monumental que faz calar sua “deusa” e a assusta. Ela prorrompe em
choro soluçante, geme que ele é um bruto, um grosso, um machão. Retrai-se
ofendida e passa uma semana macia como seda. Daí deduz-se que o bom da vida é
só após o estrilo. Que tristeza!
Homem serve para ela descolar-se da ilusão de que aquele
portentoso assegurador de sua insegurança possui, lá no fundo, um babaca,
ridículo e sem graça sujeito, a quem ela dá o melhor de si. Até desencantar-se
dele.
Homem serve para dar respaldo, confiança e certeza ilusória
de que ela está amparada e protegida pelo senhor seu marido.
Homem serve para banzar, flanar pela aí. Preso, na gaiola,
ele não canta bonito e gostoso.
Mulheres
sabem que possuir um homem e com ele transar é o melhor antídoto contra o
engordamento sem volta.
A maior
utilidade do homem para a mulher é ela possuir alguém de quem ela pode criticar
e reclamar, sempre, para as outras mulheres.
Homem
cumpre o curioso papel de servir de álibi para que certas mulheres tenham a
quem imputar sua dependência, seu comodismo ou sua infelicidade. Enquanto
cuidam deles, elas se sentem empregadas e não precisam se dar a canseira de
cuidar da própria vida.
Homem macho
masculino, cheio de hombridade, é dotado de um grave defeito: gostar de
mulheres. Pois se não apreciasse o gênero, com certeza, eles nem as
cumprimentariam...
O único homem que presta pois é o
que excita, é o bandalho, o cafajeste, ou o epiceno. O canalha se revela desde
o início dizendo:
- Eu não presto, mas acho você um tesão.
Assim, incita na mulher a certeza do
quanto ela pode ser, gostosamente mulher. Pois é ele que aciona as mais
deliciosas fímbrias da excitação sexual.
Homem serve para transar gostoso e
para introduzir sua amada mulher nas artes do amor a dois compartilhada, em
plena cumplicidade...
Ah! Homem serve também para empurrar
carrinho no supermercado, enquanto sua deusa amada locupleta-se em escolher as
marcas mais exclusivas... Descobri
ontem, em pleno insight:: já notaram
que só homem serve para carregar caixão de defunto?
Com estes poucos e prosaicos
serviços, entende-se porque, com razão, quase todas as mulheres vivem tão
insatisfeitas!
Mulheres Desativadas
“Ao sair
dessa crise de horror em que me tornei pastora evangélica, doei todo meu
dinheiro para a igreja universal na explícita esperança de que seria acolhida
no redil dos fiéis e que, além disso, estava fazendo um alto investimento nas
coisas da casa de deus e, ele, portanto, me entronizaria entre os seus eleitos.
Dei com os burros de açúcar nágua. Quebrei a cara. Me desproduzi. Virei uma
louca tonta, delirante e incerta descrente. Iludida e enganada. Você, sei lá
como, me tirou dessa loucura. Te agradeço. Mas te cobro. E agora? Quem sou eu?
Uma banana, uma porcaria de esposa desativada, de filha ingrata, de mãe
desempregada e desnecessária, de ex-funcionária que não deu certo ou que não
teve continuidade em uma dúzia de atividades. Tudo era pouco para mim. Sai pelo
mundo buscando a grandeza, o êxito, em busca daquela parte que eu supunha que
me cabia e que estava à minha espera. Desencantada com meu casamento e com
minha cidade, sai para alçar novas conquistas. Tudo redundou em falimento.
Voltar a
ser esposa? Nem ele nem eu queremos mais. Não há liga, não há atração. O amor e
o tesão evolaram há muito tempo. Meus filhos já não mais precisam de mim. O que
ainda posso lhes oferecer, eles recebem mal. Ou então recusam agressivamente.
Trabalhar? Em que? Quem vai querer dar serviço a uma mulher de 50 anos que não
sabe rigorosamente fazer coisa alguma? Voltar a fazer aquelas bobaginhas que eu
chamava de arte, de artesanato? Pra que? Voltar a me apaixonar por um bispo?
Nem pensar: fui seduzida e trapaceada da maneira mais torpe possível. São um
bando de falsos, de vendilhões de falsas promessas.
Cuidar do
patrimônio da família? Não sei administrar. Nem sei por onde começar. Melhor me
acomodar e deixar como está tudo, nas mãos de meu pai.
Assim, eu
agora constato com tristeza a dura realidade em que me encontro. Sou uma esposa
desativada. Uma mulher posta à margem do mercado erótico. Não sei paquerar,
sair ai pela noite. Ninguém me ama, ninguém me quer. Ninguém mais me chama de
bonitinha, de gostosa. Muito menos, de querida! Acabou, por decurso de prazo,
minha função como mãe. Também já não sou mais dona de casa. Não tenho vida
própria. Desmantelei meus cabedais. Acho que vim a este mundo por engano. Estou
colocada por fora da realidade que vigora ai fora. E pior, não sei como penetrar dentro dessa realidade. A mim falta
todo tipo de interação social. Ao se desfazer a estrutura insatisfatória com
que eu vivia fiquei vazia, fiquei sem função. Para que eu sirvo? Para nada. O
que tentei, falhou, faliu. For ever living, herbalife, nature sunshine, amway,
avon, mary kay, butiqueira do Paraguai, tentei de tudo. Sou uma pessoa vazia,
sem chão e sem função. Aos 50 anos, sou uma mulher DC10: grandona, vistosa, que
já foi muito útil e muito querida mas hoje caminha para o cemitério dos aviões
anti econômicos, a serem desativados.”
- Você me
faz lembrar uma música do primeiro Chico Buarque: Lua cheia. De 1967. Seu
deus e seu ideal não vieram de lugar algum.
Sua voz,
sua viola chora queixas que só eu consigo ouvir. Você quer abrir seu peito, sua
vida, cantar e ser feliz. Mas a vida não se integrou, não colaborou. Você ficou
triste, pudera. Você navegou mares tão diversos, tão dispersos. E assim você
terminou sem versos, e ficou em vão.
É lindo. É
triste. Mas é adequado: cabe perfeitamente.
Corre assim:
Mas você me navegou/mares tão diversos
E eu fiquei sem versos/ e eu fiquei em vão.
Entre 42 e 55 anos, as mulheres que
foram esposas amadas, donas de casa extremosas e mães dadivosas e que tentaram
alguma atividade artística, comercial ou estudantil diletantemente, se pegam
falidas, encostadas, desativadas, arremessadas na pilha de seres humanos
marginalizados, a caminho do enferrujamento pessoal, rumo ao desmantelamento
futuro. Esta é uma armadilha existencial que está montada em nosso tempo, em nossa
sociedade.
E ninguém te alerta para esse agente
roedor de carne e de gentes, chamando projeto Brasil. Abre o olho, dona: viver
é sem garantias. Nobres funções humanísticas exercidas com tanto amor, empenho,
carinho e bondade tem prazo inexorável de duração. Esposa nem tanto, pode durar
mais, mas ser mãe e ser diletante tem sua obsolescência programada, tal qual os
carros fabricados pela General Motors.
Esse nosso mundo capitalista
fascinante não foi feito para as mulheres.
Pres´tenção minhas amigas queridas,
todas vocês. Não se iludam quando a mídia propala que, como “jardineiras”,
Não fique triste que esse mundo é todo seu / tu és muito mais bonita que
a camélia que morreu.
Este mundo não é de ninguém. Menos
ainda de vocês, mulheres. Ele é duro e impérvio como casca de ovo que precisa
ser bicada por todos nós, homens e mulheres, quando é tempo de sair da
comodidade simbiótica do ovo da inocência e da ingenuidade diante da vida.
Bicar é preciso. Não dá para viver
acomodada por 90 anos...
Ser mãe é profissão, é nobre
ocupação por 20, no máximo 25 anos. De repente, a mãe está desempregada. Beleza
e formosura, turgor e fofura acabam ai pelos 50 anos. Depois, é muxiba pura.
Isso se não engordar e virar uma obesa, uma avantajada matrona.
A beleza feminina é outorgada pela
natureza em leasing, um empréstimo
com prazo de apenas duas ou três décadas de duração.
Sem companheiro constante, rolando
pelas noites e madrugadas sombrias, com uma vida sexual parca e aleatória,
acumulam-se sucessão de desencantos que, logo se condensam em amarguras. Seu
discurso inclui sempre a vituperação ressentida sobre aquele ou aqueles que
desistiram de partilhar com ela um projeto de vida em comum.
Tristemente caminhando para se
tornar uma caricatura daquela moça que foi, percebe, secretamente, que sustenta
em seu íntimo, as alcandoradas expectativas românticas de vir a ser descoberta
e amada por um homem dotado de todas as qualidades que seu ideal sempre
concebeu. Homem esse que jamais existiu no time corriqueiro dos machos da espécie
masculina. O desacerto e a frustração relacional são quase inevitáveis,
portanto.
A maioria das mulheres desativadas
está desempregada. Seu sustento econômico-financeiro costuma ser precário,
situando-se bem abaixo do desejável e do que um dia já foi. Os caminhos que
encontram para se manter são: o uso abusivo da comida ou do álcool. Umas tantas
caem na volúpia da renovação semanal de parceiros sexuais. Muitas apegam,
caninamente, às superstições e às falsas práticas “alternativas”. Crédulas,
tornam-se consulentes de cartomantes, de videntes, de pais de santo, e
quejandos... Outras transformam-se em verdadeiras “bruxas” modernas. Uma grande
parcela torna-se carolas fanáticas de igrejas evangélicas. Outras tantas,
apegam, aferradamente, aos filhos como o último galardão de suas vidas.
Mulheres desativadas é o equivalente
no gênero feminino ao homem desempregado, fracassado, posto à margem da vida,
sem amparo ou guarida, infeliz ex-mantenedor de uma família.
Nosso sistema social, cristão,
industrial, urbano, capitalista, midiático, ocidental, é pródigo em criar um
exército de excluídos de sua mesa e de suas Bolsas principais. Os homens sempre
souberam disso. As mulheres, para desgosto de todos nós, estão descobrindo isso
agora.
As mulheres estão aprendendo a duras
penas, que tudo muda, nada tem perpétuas garantias e, portanto, é inadequado e
contraproducente acomodar-se, deitada em berço esplêndido. Se durante anos ou
durante uma ou duas décadas ela desfrutou do conforto de viver com custo zero e
benefícios altíssimos, lá um dia, o marido cansa dela e da relação, que ambos
vinham mantendo, a abandona e vai embora. Olha lá se deixa uma “pensão”. Se
acaso ela não se construiu como pessoa autônoma, capaz de se autossustentar,
afetiva e financeiramente, corre o risco de ver descair-se em plano inclinado
sua existência. Não se pode esperar que o outro – amor, marido, amante,
companheiro –, zele por sua segurança e assopre constantemente sua autoestima.
Seu autorrespeito e sua autoconfiança deriva de seu poderio interno. Ou não. O
outro será sempre seu zelador sem cuidado. Ele – qualquer outro elegido –, não
é o fiador que dará respaldo perpétuo à sua existência. Não espere que sua
segurança e sua autonomia estará nas mãos dos outros, por que assim sendo, você
irá despencar. Sua força é interna, como sua beleza é explícita. Caia fora da
armadilha de esperar que, morando, casando ou vivendo com fulano – o amor de sua vida – você tem garantia de que será
feliz. Não deixe que ele seja dono de sua vida. Saia da dependência psíquica. O
amor e o viver com alguém só é bom, só é duradouro quando os dois convivem em
uma melosa matriz na qual ambos são autônomos. Isso se mantém porque é
agradável e prazeroso e aos dois convém. Lembre-se que o preço de estar e de
desfrutar de sua gostosa pessoa é você quem põe. Contudo, viver é adquirir
cabedais, desenvolver bons recursos pessoais. Para isso é preciso ralar,
trabalhar, e pagar pontualmente os custos que a vida custa para os homens e
para as mulheres ao longo dos anos.
É triste e é custoso extrair os
memes, as epistemes, os objetos idealizados internalizados desde a juventude de
que ser mulher é realizar nova versão da Branca de Neve ou da Bela Adormecida
ou ainda postar-se como núbil Princesa a ser tocada pela vara fálica de um
Príncipe Encantado.
Para as mulheres desativadas é duro
cair na realidade do Real. Ou vice-versa.
Um tipo encontradiço de mulheres desativadas è dado por mulheres entre
35 e 55 anos, fortemente presas na armadilha de se empenharem em uma profissão
absorvente ou estarem metidas em um empreendimento pessoal que suga toda
sua vitalidade. Em poucos anos perdem a seiva de viver, tornam-se monomaníacas
hiperativas, vivendo apenas para o trabalho. Sua sexualidade se esvai
rapidamente: ficam desinteressadas do amor, evitam o intercurso sexual,
chegando a tornarem-se frígidas. No
entanto, todas se declaram “ gostar demais de sexo.” O amor passa a ser um mero
ideal a ser vivido lá longe, um dia, na remotidão, que se perde no fluir do
tempo... Aí, elas engordam...
Um harém na senectude
Olhou através da vidraça e viu a
chuva caindo, mansa e constante. Aquele tempo não o entristecia, mas o tornava
melancólico. Trazia uma certa nostalgia. Havia vivido muito, 78 anos.
Trabalhara o suficiente para ter uma grande e bela mansão, num bairro nobre,
com um imenso quintal, cheio de árvores frutíferas, um jardim onde gostava de
passear de manhã e verificar se havia uma nova flor. Estava sozinho, porém. O
filho vivia em Rondônia e só aparecia uma vez por ano. Não ficara viúvo,
separara-se de Edith havia muitos e muitos anos. Tivera muitas outras mulheres.
O seu gosto pela liberdade, no entanto, impedira-o de levá-las a morar com ele.
Queria o sabor de poder sair e não ter de dar satisfação a ninguém. Havia a
empregada. Sim, sem Rosilda, não podia passar. Era boa, paciente com suas
implicâncias, não faltava ao serviço. Sentia, porém, que tinha mais pouco tempo
de vida. Quantos anos? Anos? Talvez nem um.
Deixara de
clinicar havia cerca de 15 anos. Não suportava mais ouvir clientes lamuriosos,
que não traziam nenhuma novidade. Era apenas a depressão de todos os dias, que
acometia 90% da humanidade. A psiquiatria o desencantara. Que diferença de
quando havia começado a clinicar. Fazia parte de um grupo recém-formado, cheio
de entusiasmo com as idéias de Freud. Com o tempo, verificou que havia pouca
novidade. Tudo já havia sido dito. O tratamento não variava. Tome isso, tome
aquilo. Funcionava com alguns. Com outros... falhava lamentavelmente. Nem
gostava de lembrar.
Poucos
colegas ainda sobreviviam. Alguns haviam trocado a clínica médica por outra
profissão menos desgastante e mais rendosa. Pensou em quantos ainda viviam.
Poucos, Alberto, Rogério, Bragança, Ademir. Todos doentes. De alguns, não tinha
notícia. Ademar fora para os Estados Unidos, Ronaldo, para a Suíça, onde se
casou. Lucinda casou-se com um francês e deixou a profissão. Como estariam?
A chuva
agora estava mais forte. Eram dez horas da noite. Estava sem sono. Escrever?
Ler? Passou os olhos pelas estantes. Quantos livros! Para quem os deixaria? O
filho nunca se interessou por eles. Havia livro para todo gosto. Não só os da
área psi, mas também de história, biografia, filosofia, mitologia, ensaios,
romances, poesia, teatro. O seu mais forte desejo era o de aprender, de
conhecer. Almejava o Saber. Não tinha, no entanto, vontade de nada. Resolveu
fazer um chá. Depois se deitaria e talvez lesse um dos últimos livros que
comprara. No dia seguinte... bem, no dia seguinte... era o dia seguinte.
Dormiu mal,
acordou várias vezes durante a noite. Às cinco horas, resolveu levantar-se. Leu
o jornal. Nenhuma notícia nova. Os crimes de sempre, a voracidade das nações
ricas, empobrecendo cada vez mais os países pobres, um ator preso por porte de
drogas, busca armada nas favelas, o último escândalo político-financeiro do
governo... Drummond tinha razão: - Eta vida besta, meu Deus!? Ou Couelet, o pregador:
- Nada de novo sob o sol!
Foi quando o telefone tocou. A essa
hora da manhã?
– Renato? É Matilde... (Matilde? Que
Matilde? Deve ser alguma cliente...) - Estou ligando porque preciso muito falar
com você. Foi em você que pensei hoje, logo que acordei. Aí, falei pra mim: Vou
ligar pra ele. Saber como ele está. Quem sabe, a gente pode se encontrar. (Ele
se lembrou: um dos seus antigos “casos”). Olhe, vou dar um jantarzinho aqui em
casa hoje à noite e você está convidado. Tá certo?
– Ah, sim, com muito prazer (que
chatice, ter de sair com essa chuva e esse frio!). Seu endereço...
– Ainda é o
mesmo. Ou você já se esqueceu? Lindóia, 45, apartamento 302, lembra?
Levar umas flores? Ou uma garrafa de
vinho? O vinho é mais prático e mais barato. É só embrulhar.
Ela o
recebeu com dois beijinhos, toda amável. Meu Deus, aquele “avião” virou “isso”?
Ele percebeu que a mesa estava posta apenas para dois. Estranho...
- Bem, quem são os outros
convidados? Conheço algum?
– Ah, você nem imagina! O Beraldo
disse que pegou um resfriado, o João Carlos teve de viajar de última hora, e a
Beth está com a filha doente. De maneira que somos só nós dois...
Ridículo!
Afinal, jantaram, foram para a sala tomar um licor e aí, então, ele soube o
motivo do convite. Ela se aproximou dele, toda manhosa, e tomou suas mãos.
Olhando-o nos olhos, disse:
- Relembro,
com saudade, o nosso amor. O nosso último beijo e o último abraço. Desde então,
Renato, fracassei. Não vou lhe dizer dos meus desenganos... Apenas você
permanece como homem na minha mente.
E ela,
deslizando a mão do joelho para cima na coxa dele, fitava-o com aquele olhar de
mulher pidona. Renato pensou:
- Eta vida besta, meu Deus! Já quis
demais essa mulher e ela amarrava demais a ‘perseguida’. A bem da verdade,
sempre a comi muito mal. E hoje, está ela aqui toda oferecida, e eu nem trouxe
o meu Viagra. Há muitos anos que não confio no meu ‘rapazote’. Mas pode ser que
funcione!
Por dever
de másculo ofício, ele deixou-se “sarrar” e, preguiçosamente, foi sentindo
alguns vagidos na parte que importa. Tiveram uma relação. Ela, eufórica. Ele,
temeroso. Logo depois, como é hábito dos machos da espécie, ele deu ponto de ir
embora. Ela, porém, enredou-o, oferecendo-lhe chá, café, chocolate, frutas.
Renato juntou o resto de cavalheirismo que tinha e permaneceu mais alguns
instantes. Passou a observar a decadência dos móveis, o desaparelhamento dos
talheres e a pobreza geral do ambiente. Foi quando ele deu um vacilo:
- Como está a sua situação
financeira, querida?
Duplo vacilo.
Ela então
destampou a caixa de Pandora. Fora bela e imprevidente. Fora pródiga e incauta.
Acreditara sempre que a cornucópia da vida adulta se manteria nos anos da
senescência. Estava ao desamparo, roçando a miséria. Renato era seu último
possível amigo. Ela precisava de dinheiro para pagar dívidas urgentes e
necessitava dele para sustentá-la. Aí ele teve o terceiro vacilo.
- De quanto você precisa?
Ela disse uma soma não muito alta.
- Vamos lá em casa pegar essa
quantia. Ou melhor, junte suas coisas e venha passar uns dias comigo. Ando
muito solitário. Só te advirto para não ficar falando demais...
E assim foi.
A sorte nunca vem sozinha. Três dias
depois, Renato decide abrir seu computador. Lá estava o e-mail de Suzana,
datado de dois dias antes. Dizia ter lido no jornal o anúncio de falecimento de
Ambrósio, querido amigo comum, companheiro de juventude e de festas.
Lembrara-se de Renato, tivera um presságio e queria estar com ele com urgência.
Renato lembrava-se vagamente que tivera um longo affaire com Suzana, mas
um ranço surgia sempre que se recordava dela. Algo se desacertara entre eles.
Mesmo assim, teclou, convidando-a a jantar em sua casa, naquele mesmo dia. Ela
não se fez de difícil. Confirmou seu comparecimento e veio escoltada por duas
malas e uma valise.
O jantar transcorreu sob certa
tensão até a hora da sobremesa. O vinho e a saborosa refeição exerceram sua
propriedade de abrir o coração dos três comensais. Suzana também estava em
situação financeira precária.
Ele decidiu acolhê-la. Seus cabedais
acumulados durante décadas de prosperidade não seriam dilapidados por aquelas
duas, restos decadentes de antigos amores viçosos. Havia ainda réstias de
generosidade em sua pessoa.
Dois
dias depois, resolveu dar um bordejo pelo bairro. Foi quando deparou-se com uma
mendiga. Havia nela alguma coisa de familiar. Quando ouviu sua voz
solicitando-lhe uma espórtula, ele de imediato reconheceu: - Mariana!
Fora um mulherão nos alvores de sua
mocidade. Cabeça leve, metera os pés pelas mãos depois de voltar separada do
conde italiano que a arrebatara para Europa. De degrau em degrau, decaíra rumo
a marginal da vida. Suja, desgrenhada e desdentada, Mariana era a própria
imagem da desgraceira humana. Levou-a para casa, reparou o que fácil podia ser
melhorado e ela se mostrou grata e feliz.
Agora eram três mulheres a lhe fazer
companhia. Sentiu medo de ser invadido. Mulheres sempre querem tudo e muito o
tempo todo. No entanto, elas eram idosas e foram vencidas pela vida.
Comportavam-se como boas amigas e solicitavam pouco dele. Pareciam satisfeitas
por estarem naquela soberba mordomia. A vida corria nos seus vagidos habituais
quando Renato recebeu um telefonema de Bragança, colega e velho amigo.
Anunciava que Mônica, mulher que ambos comeram durante quinze anos, estava mal
no CTI de um hospital. Ela implorava vê-lo. Renato pensou: - Parece que todos
os meus fantasmas eróticos resolveram me assombrar. Pelo sim pelo não, foi
visita-la. Dois dias depois, ela foi removida para o quarto e cinco dias depois
estava de alta hospitalar. Não tinha para onde cair morta. Conseqüência: mais
uma para o redil deste vetusto senhor. As quatro logo formaram um aquelare, uma verdadeira confraria de
bruxas solertes e benignas. Seu tititi cessava, de imediato, assim que aparecia
o senhor Renato. Homem não gosta de conversa fiada. Ainda mais tendo sido
psiquiatra...
Ele foi se acostumando com a
presença daquelas que pertenceram ao seu universo de amores, de sexo e de
bondade feminis. Sempre gostara muito mais de conviver no seio das coxas de
suas mulheres do que no meio de seus pares na sala dos médicos...
E foi tocando...
Num vinte e três de novembro, a
Associação Médica o destacou como homenageado. Não havia como fugir. No
coquetel, encontrou Eliza: lindona, louríssima, botocada, rica, recém-separada
e, como logo percebeu Renato, cheia de amor prá dar... Queixou-se de seu
ex-marido, de que fora muito infeliz e guardava de Renato a forte lembrança de
um homem que fora o melhor entre os noventa e sete que conhecera. Moravam no
mesmo bairro. Ela passou a freqüentar a casa. Foi assim que o senhor Renato de
Tal, as vésperas de seus setenta e nove anos, passou a fazer uso de meio Viagra
pela manhã e meio Cialis toda noite. Aos domingos, descansava. Sempre tivera
duas ou três mulheres simultaneamente, separadas para não dar confusão. Agora
dispunha de um serralho de cinco mulheres ainda ávidas e desfrutáveis. Tratou
logo de ir ao seu cardiologista para manter-se à altura de tão gentis senhoras.
A felicidade batera nos corações destes provectos senhores. Era uma
tranqüilidade: Cozia-se, lavava-se, enxugava-se, caseava-se. Tecia-se o bom da
vida em manso sereno. Renato comprava as vitualhas e administrava aquela gentil
comunidade. Sempre amável, paciente, ouvia as longas histórias que as mulheres
precisam contar para se manter emocionalmente equilibradas. No entanto, era
incisivo e bravo sempre que algo não lhe agradava.
Anita, uma vizinha, soube do
cerralho que se formara na casa de Renato. Sempre fora secretamente gamada por
ele. Tomou coragem e resolveu se apresentar. Renato a acolheu com simpatia.
Agora era seis mulheres, todas queimando óleo setenta mas garbosas o suficiente
para os lavores de Vênus.
Atendendo uma por dia, sobrava o
domingo. Haja Cialis, pensou. Precisava preservar o seu biliu. Reuniu-as e
propôs:
- Folgo as quartas-feiras. Saio e
vou flanar por aí... Atendo com prazer as segundas, terças, quintas, sextas e
sábados. Descanso no domingo, a exemplo de um antecessor. Assim, uma de vocês
ficará chupando o dedo, em rodízio, a cada semana... Que tal?
Melhor que nada. Todas concordaram e
o rodízio foi estabelecido.
Foi assim que seguiram aquele velho
adágio: quem tem dá, que não tem recebe. E todos ficavam satisfeitos.
Não sei dizer quanto tempo viveram
nesse contubérnio. A confraria sabia que todos rumavam ou para o reino do
alemão – Alhzeimer –,
ou para os braços trêmulos de Mister Parkinson. A seguir, os encarava a caveira
escancarada da morte. Sem ilusões nem esperanças fajutas de transcendências
divinatórias.
Renato desfrutava de momentos
íntimos, haurindo de cada uma sua delicia específica e especial.
Ele e elas aprenderam na oitava
final da vida a viver e a se dar bem. Sem mistificações...
PAR
Dançando
contigo esse bolero
Sinto que
tomei decisão com acerto
Quando suas
mãos macias num aperto
Despertou
em mim os vagidos do “eu quero”.
De
revolteio, tudo girou em desacerto
Eu te
cuidando com esmero
Você na
sua, se guardando do asserto
Nós
inembriados, dispostos a sair do zero.
E a noite
bem transcorreu em descoberta
Teus seios
levemente esmagados
Num abraço
manso, forte e certo.
No espelho
defronte nós nos flagramos
Mergulhando
no doce quente inferno
De nossos
corpos indóceis e frementes.
- Você é
muito viada,
Disse-lhe
eu num assomo de intimidade.
Você logo
tensa, assustada,
Para mim
sorriu com constrangimento.
- Que
queres de mim, oh ser galante
Que me
acaricia e logo me ofende
Como se
estivesse entreabrindo, vibrante
Minha flor,
meu opérculo, minha frente?
E eu
impávido, atrevido, metido:
- Quero
tudo, você, suas coisas fundas
Lábios,
viscosas, muco, tudo...
Num assomo
de animalidade hiante.
Comer-te é
pouco, pois me fascinas
Com tua voz
de corça assustada
E com teu
lombo que sob a veste
Destaca as
curvas de suas delicias.
- Tarado!
Grosso! ela me censurou
E mais se
aprochegou
Sinalizando
que o festim
Sexual era
para já já se desfrutar.
DISCURSO PLENO
Aproveitando
a sua fala,
eu queria
deixar colocado que,
assim, a
nível de reflexão,
fazendo um
corte epistemológico,
desenvolvemos
um projeto de pesquisa
versando
sobre o tema proposto.
Pegando um
gancho na sua fala
Eu queria
pontuar algumas questões
Para deixar
bem colocado
Nosso
ideário psicoéticopatista
Que traduz
o pensamento de nosso
Iluminado
guru, uma vez que
Ele jamais
leu um livro mas deu
Um dedo
pela causa do povo.
Quero
deixar bem claro
que falo a
partir de um lugar
onde é
possível visualizar
aquilo que
você afirma
como tendo
muita coisa a ver.
Mas
desejamos ressaltar um ponto:
a coisa não
passa por aí...
É que,
sabe?,
estamos num
determinado momento
em que a
gente estamos empenhados
num
trabalho sério de cogitação
que
redundou na concepção
de um novo
modelo assistencial
baseado num
novo paradigma
que nos
permitiu reformularmos toda
uma
estrutura viciada de atendimento.
Afinal,
achamos que era preciso repensar
toda nossa
relação anterior.
Daí, essa
nova proposta
colocada
dentro de um novo marco teórico
que
pretende dar conta de nossas perplexidades atuais.
É com esse
espírito
que
trazemos nossa proposta de trabalho
para
pensarmos juntos.
Sabemos que
vocês têm cometido equívocos
mas são
sujeitos perfeitamente recuperáveis.
Eu, por
exemplo, sei que o coração de vocês não é esse...
Mesmo
porque estamos convictos,
e vocês hão
de concordar comigo,
que temos
de desenvolver um esforço
para
superarmos nossas diferenças heurísticas,
pois o que
está em jogo
é um valor
mais alto que se alevanta:
- Tudo pelo
paciente!
E tome
pipipi, bobobo...
Patati
patata...
O AMOR
O amor é
algo revelado instantâneo, a partir da ávida ou ingênua procura que o amante
faz. Ele é querido, ansiado, pré-concebido, antes de ocorrer. E assim, súbito,
ele surge, aflora, revela-se. Como um objeto excitante, como um busílis, um
pequeno objeto a. Tem o dom de
penetrar, percorrer e tonificar as fímbrias do ser amante, dando-lhe uma
sensação de urgência, de vida-a-ser-vivida-na-ponta-dos-cascos. O amor ouriça
os sentidos. Eriça os pelos da epiderme. Bolina o
tesão. Vitaliza todo o corpo.
O amor é o
começo de todo enredo, aquele que determina o seguimento das coisas. Também
quem mandou? ninguém manda. Você se capacita e pronto: um dia, se surpreende
amando. Pode refugar e encerrar a questão. Se não, estará correndo todos os
riscos vertiginosos de um parque de diversões. Vivendo o presente. Porque o
amor só quer a emoção palpitante, no presente. Não cabe perguntar pelo futuro,
garantir perenidade, tornar-se segurança, responsabilidade, instituição. Vale o
vivido. O sentido. Em todos os sentidos. Só. O amor não quer saber de
romantismos. Debocha de amarras, de compromissos, de certezas. Ele só quer é
mais amar. É terno. Anilzinho.
Ele me faz
ficar hirto, teso, de atalaia para suas insurgências e surpreendentes
possibilidades. Ele me diferencia da banalidade do cotidiano. Faz sentido,
ultrapassando a constante charlatanice da realidade.
Tem por
lema uma quadrinha mineira:
“Aceite
o pouco que o amor te envia
se mais tivesse, mais te
daria.”
É avesso às
exigências, requisitos, reclamações e cobranças: ácidos que o corroem
vorazmente.
O amor é
aquilo que fere a corda e a faz vibrar, musicalmente. Usa, lambuza, vira ao
avesso, bota de quatro aquilo tudo que estava belo-adormecido. Escandaliza.
Arromba. Viola. Ultrapassa. Rompe as miseráveis barreiras repressivas bem
comportadas da neurose. Nos arremessa ao encontro da coisa sexual.
Exige que
eu cresça; amor é brincadeira de adulto. Não cabe a inocentes, puros,
virginais. Quer que eu desça do pedestal do idealizado infantil, que me descentra
e me coloca lá adiante, no futuro: o bom distante de mim, sempre. O amor não
tolera isso: ele me quer cambono de mim mesmo, entidade pulsional a cavaleiro
do meu próprio corpo, diabólico, com a espada em riste, na mão. Pronta para
enfiar no dragão. Ou em coisa mais fofa.
Quer que eu
aceite as coisas como elas são: o meu amor como ele é: feio, brega, aprontador
ou recatado, elegante ou escrachado, conveniente ou não.
Dói. Amar
dói. Uma dorzinha danada de gostosa. Às vezes, uma dorzona. O amor é no agora e
no tesão. É um passaroco louco que se desloca caprichosamente, no arremedo de
minhas boas intenções e de minhas conveniências, ao sabor do meu voto, do meu wunsch e que é encarregado de revestir
meu objeto amoroso de uma mais-valia, de um excedente de delícia. Cada qual tem
seu código pessoal para acionar o comutador que deslancha esse prazer. Às vezes
isso é tão mutável quanto uma mariposa. Ou um beija-flor. E é tão desacorçoante
que pode levar o sujeito à sem-vergonhice e à descaração. Ou à loucura. Ou
então, atingir aos mais altos e sublimes registros da vida erótica. Às vezes,
pode-se escolher.
O amor não
admite hesitação, além de um discreto charme no jogo de cena. Seu tempo é
apocalíptico: agora! Sua lei é aquela que vigorava na antiga BR-3: – Ou dá ou
desce! Não quer saber de puros, de inibidos, de virgens, tímidos ou
despreparados. Mais que tudo, amor cresce de todo lado: se faz amor ao amar.
Fulgura.
Só dura se
administrado com competência.
Dama
You are my
sunshine.
Ando meio Blue and sentimental
Tenho
certeza que você faz parte do meu show.
What´s new?
The nearness of you. Tenderly.
Mas também
quem mandou eu brincar com uma
Sophisticated
lady?
Just you,
just me: just a gigolo.
You look
good to me, mergulhei numa Lush
life.
envolto em Nica´s dream, feliz como Nancy with the
laughing face.
Imerso In a mellow tone. eu me concertei em
você.
Pronto: acabei bewitched,
bothered and bewildered.
Você penetrou under
my skin.
(Agradeço-lhe
por existir e rezo: Oh! Lady be good.)
Vivo num
clip sem nexo, meio Body and soul.
meio Bossa
Nova e rock n´roll.
Passamos a
viver freneticamente: Stompin´at the
Savoy,
ao som de
Django: Nuages, Topsy, ou de Porter: Too darn
hot.
Ben
alertou: Mas que nada, o sumo é o
trigo do Oscar
Peterson: Wheatland,
Waltzing is
hip, It ain´t necessarily so.
Já nos
tostamos sob o Caribbean sun, onde
aprendi a desejar
One for my
baby (and one more for the road).
O fato é
que I´m old fashioned e, de há muito
deixei de ser
Young and
foolish.
All of me
ainda quer viver contigo um April in
Paris,
dançando,
envolvidos, num Cheek to cheek.
A gente vai
levando,
ora Begin the beguine, ora Cocktails for two.
Mas sempre
imersos em Fascinatin´ Rhythm.
É essencial
sentir que somebody loves me,
flanando ‘Round midnight até, por vezes, me sentir
Perdido.
No entanto,
Sometimes I´m happy.
Mas quem
mandou não lidar devagar com a louça?
Não é
desculpa dizer que eu não conhecia - Misty.
Witchcraft – a moça.
Vago na lua
deserta das praias do Arpoador.
Louvo seus
trinta anos blue, minha Satin doll.
You go to my head, a tal ponto que não tenho pejo de
I´m
Confessin (that I love you).
É por tudo
isto que não cessamos de Makin’ Whoopee.
Indo fundo
no fundo do fundo.
Mas só se for por você...
Fêmea,
feminino, mulher.
Honrai
as mulheres!
Elas traçam e tecem
Rosas
celestiais para a vida na terra;
Trançam os laços beatíficos do amor,
E na graça dos véus de seu leve
recato,
Com mãos abençoadas animam,
vigilantes,
O fogo duradouro de
belos sentimentos.
(Schiller – 1759-1805 – In Poesias: “Dignidade
das Mulheres”)
A
natureza houve por bem evoluir para células dotadas de núcleo, onde se dispõem
o patrimônio genético e o autopoiético das células. Criou os gametas ou células
germinais, haplóides, que têm metade do patrimônio genético das células
diplóides que constituem o organismo. Células sexuais são, portanto, haplóides.
Células provenientes de um macho buscam e encontram células fêmeas para formar
o zigoto ou ovo, que dá origem ao desenvolvimento de um novo ser vivo.
Sexo.
Sexualidade. A natureza criou a divisão sexual para que pudesse haver
diferenciação, evolução, complexificação e
variedade de vida. Ou, na
visão bíblica: “ Macho e fêmea os criou”. Em 1975, a ONU instituiu o
“Dia Internacional da Mulher”, em homenagem a essa especial metade da
humanidade.
Mulher
é femealidade: contornos curvilíneos, adiposidades, maciez, passividade,
submissão, procriação. É feminilidade: doçura, receptividade, acolhimento,
ternura, capacidade de sustentar longas tarefas. Beleza, charme, sedutividade.
Mulher
é fêmea: significa receber dentro de si o apêndice do macho, sustentar os
embates do coito. Gozar, ao ser possuída, possuindo.
Mulher
é mãe: gesta, gera, pare, amamenta, acalenta, cuida, nutre, sustenta. Primeira
e última instância. Atávica, mucosa, viscosa, encarnada. Mãe é fruição em
tempos largos. Gostosos e ressarcidores.
Mulher
é companheira. Doce, meiga, amiga, compassiva, estimuladora. Capaz, sensitiva,
intuitiva, séria, empenhada.
Mulher
é deusa. Formosura, encanto, mistério. Alvo da cobiça e do desejo masculino.
Inalcançável, no entanto, sempre à mão.
Mulher é boa. Como primeira educadora da
humanidade, é o leite da bondade da mulher que mitiga a fome, a miséria e a fúria da condição humana.
A
mulher é centrada em si mesma: ela é, apenas em si, fundada em seus ciclos
biológicos naturais.
A
mulher é toda. Completa, integrada, inteirada. Natureza natural, cíclica, estável em sua instabilidade, a
mulher é base, jazigo, fundamento, raiz e porto; posto de sustentação afetiva e
base de abastecimento nutricional. Ela sabe que não há livre-arbítrio: o ciclo
menstrual, o ritmo inflexível da procriação são condenações estabelecidas pela
natureza.
La
donna è mobile
Qual piuma al vento
Muta d’accento
E de pensier.
Sempre un amabile
Leggiadro viso
In pianto o in riso
É menzogner.
A mulher pode ser terrível: Górgona,
(Medusa), Medéia, Moira, Nêmesis, Megera. Ou maravilhosa: as três Graças Aglaia
(brilho), Eufrosina (júbilo), Tália (florescimento).
Ela
é a fabricante primeva. Dá e sustenta a vida.
Mulher
torna-se, faz-se ao longo dos embates eróticos na novela romântica do
envolvimento com o homem. Ela vai, ela vem, em um circunvolteante vir-a-ser,
até que encontra um homem que a faça ser.
Qual
o desejo da mulher? Tornar-se mulher, talvez para ser descoberta e colhida por
um homem. O que quer a mulher? Vir a ser mulher. Desejada, amada, colhida pelo
homem que ela escolhe para ser seu. A mulher deseja, tal qual o homem, possuir
a liberdade de escolher os caminhos que melhor lhe convém.
Nela
tudo é emoção, afeto, sensibilidade, coração, até quando usa a cabeça e lida
com a razão.
As
mulheres são as primeiras educadoras do gênero humano. Domesticam e civilizam –
ensinam civilidade aos brutos homens.
Uma
civilização se gradua pelo modo como dá atenção, decência, consideração e
oportunidades de realização às suas mulheres.
Mulheres
amam o amor. Amam serem amadas. Amando, são mais lassas, mais enfunadas e mais
fiéis.
Mulher
espera. Parece boa. É boa. Caridosa. Compassiva. Gentil, amena, solidária.
A
mulher é toda. Ctônica. Cresce por dentro, por intussuscepção. Um corpo que é
um facho sexual todo erótico.
A
mulher é contínua, tátil, indireta, enviesada, tergiversa, envolvente. Vive em
lalarilá: em rêverie. Vaporosa. Diz não!, dizendo sim.
Ela
sabe que o homem é quem quer. Ela é apenas uma mulher. Mas a chave da concessão
do ato é dela .
Para
ela, a atração é sutil, mágica que aciona seu afeto, estação de passagem
obrigatória que pode desembocar no sexo.
A
mulher é o sexo frágil.
A
fragilidade é uma arma poderosa.
A
mulher é o sexo forte: dotação cromossômica sexual completa: XX. Detém
patrimônio genético completo. Vive mais 5 a 7 anos que seu homem.
Ela
é mais competente no campo afetivo.
Suporta
melhor as dores, as decepções e os reveses da vida. É mais resiliente aos
azares da existência .
Possui
inteligência verbal muito superior à do homem.
Goza
toda. Orgasmo longo, extenso, absoluto. Goza mais subentrantemente.
É
superior no amor, mais sofisticada eroticamente que o homem.
Elas
têm filhos e cuidam deles. E isso é uma grande garantia para a perenidade da
espécie humana.
Mulher é acolhimento, gestação, generosidade, compassividade. Cuida dos
filhos com dadivosidade. Terna, doce, amena. Macia, fofa, confortável, sustenta
as fúrias e a estupidez das pulsões humanas.
Possui
uma inteligência emocional que a capacita a resolver bem as conflitantes
situações humanas. São tolerantes, dedicadas, sabem perdoar. Possuem uma
inteligência súbita, abarcante, intuitiva, que é um espanto.
Instruídas
pelo estrógeno, o hormônio do recolhimento e da generosidade exercida em
dadivosidade a fundo perdido, as mulheres são habitualmente seres melhores que
os homens.
A
função-mãe estabelece os alicerces da sociedade. A função-pai disciplina e
normatiza a civilização.
Homem?
é sujeito que gosta de mulher.
Mulher?
é a segunda melhor metade da humanidade.
Mulheres
são as guardiãs do lar. Esteios da família.
A
mulher vem-se apropriando de sua vertente masculina, o que permitiu que saísse
da situação depreciativa que a onerou durante milênios.
Dois
terços das citações bíblicas e das referências dos autores clássicos são
denegridoras da mulher. Isso traduz o medo e a ignorância do homem sobre as
potencialidades de sua mulher.
Mulheres
têm a mesma capacidade de julgar, acertar e cometer erros que os homens. Agora
que elas conquistaram quase as mesmas experiências do mundo e os mesmos
contatos com as coisas da vida, demonstram ter capacidade de realizar trabalho
eficaz e de operar negócios com talento. Desde que tenham as mesmas
oportunidades e acesso ao mesmo treinamento. Brilham nos salões da sociedade e
podem acrescentar uma visão de qualidade humana quando ascendem ao governo.
Problemas
?
O
arrocho financeiro que todos vivemos no Brasil.
Existem
35 milhões de mulheres no mercado de trabalho.
O
maravilhoso mundo da liberdade, do trabalho e da realização masculina, tão
desejável, existe e é penetrável, mas não é tão gratificante quanto parecia.
O
brilhante mundo masculino é extremamente desgastante. Mulheres são ingênuas no
que se refere à experiência existencial. Incautas, acham que podem fazer tudo
simultaneamente.
Assumiram
carga extra de trabalho e de encargos:
·
Tripla jornada de trabalho.
·
Dúzias de tarefas e de desempenhos.
Em razão disso, surtam de pura
exaustão.
Muitas,
tolas, impõem-se uma coreografia louca de Plástica – Dieta – Ginástica – Cremes
– Salões – Moda – Mensagens – Viagens.
A
mulher se tiraniza para permanecer bela, jovem, desejável e busca atingir um ideal de beleza, que é
contrário à tirania de seu corpo. Por fim, descobre que:
· o amor é
decepcionante;
· a vida
profissional é uma canseira;
· a velhice é
uma perseguição renhida da qual não há escape;
· o homem não é
aquele seguro farol de referência que ela, pressurosamente, supôs;
· os filhos são
agressivos, ingratos e vão embora.
Assim
surgiu a inquieta e infeliz, agressiva e neurótica mulher moderna, buscando,
caoticamente, “seus direitos” e, avidamente, “sua felicidade”, que se lhe
escapam pelas rugas e pelos dedos, a cada ano que passa.
Com
tudo isso, ainda assim, macho a que estou condenado a ser, digo: “Mulher é a
única coisa que presta nesse mundo desmastriado”.
Mulher é rosa: Muito mais feliz na terra é a rosa que destilar se deixa do que quantas
no espinho virgem crescem, vivem, morrem em sua solitária beatitude.
(William Shakespeare. Sonho de uma noite
de verão. [1595-1596]. Ato I, Cena I: Teseu).
Macho, masculino,
homem
A masculinidade
é formação reativa ao horror de ficar capturado no pantanoso regaço ctônico da
deusa-mãe. A dependência que o menino sente dos carinhos e dos cuidados de sua
poderosa mãe estabelece uma vivência de conforto que instala o menino na
placidez do contato excessivo com a figura feminina.
Então, a
certa altura, entre um e cinco anos ou o menino sai fora desse comodismo e vai
se haver sozinho, descobrindo e se deslumbrando com o mundo, metendo-se em
interação com a pluralidade de objetos de transição e com os objetos de relação
que o mundo lhe oferece ou... Ou permanece comodamente empoçado na lama de ser
aquilo - aquele adereço que a mãe sempre lhe quis. Um brinquedo, um phallus,
um adorno que a condecora como mulher capaz de ter gerado e parido uma criança
com apêndice peniano: “uma gracinha da mamãe”.
O menino
não tem licença para desfrutar os tempos largos que sua irmã usufrui, sem
prejuízos e com vantagens. Não. O menino tem que se safar desse embondo, sair
do colo da mãe amada, fugindo como o diabo da cruz e se construir, na marra, no
muque. Com o pouco de hombridade que tem, deve amassar o barro da fabricação de
sua masculinidade.
Tornar-se
macho para não ser mais o “filhinho da mamãe”. Vira então homem, precário,
bruto, mal acabado, torpe, para fugir ao horror de permanecer indiferenciado,
efeminado, agarrado na barra da calcinha da mamãe.
Homem assim
o é por ter assim se tornado em função da formação reativa contra os horrores
da captura na feminilidade básica.
Homem não
tem licença para ser feminil. Tem que mostrar serviço no árduo âmbito da
masculinidade. Ser macho é uma fuga constante dos chamamentos da mãe sirênica.
Homem nem pode dar vacilo...
Portanto, a
mulher é, toda, pronta, inteira, absoluta. Homem tem que se tornar
macho-masculino-homem. E mais, a cada dia de sua existência tem que se manter
como tal. Não é fácil. Fé que não é. Ser homem hoje já não é um bom negócio.
Daí, tantos jovens com menos de 50 anos que ficaram aderidos na estação
intermediária, mais cômoda, da homossexualidade.
Bem mais
fácil é permanecer grudado ao universo feminino, na indiferenciação gentil da
efeminização. Ou então diferenciar-se apenas ao ponto de poder mergulhar no
alegre mundo dos homens que tem fissura por outros homens, aqueles que tem
filia por homens com fâneros e ademanes de homens homossexuais.
O masculino
está sempre às bordas de deliquecer. Vive sob ameaça de derreter-se na
regressão mais barata, que o seduz, oferecendo-lhe colo, aconchego, tempos
largos de fruição descompromissada das relações com as coisas mais custosas do
mundo. O masculino só tem uma aposta positiva: é juntar seus parcos atributos e
ir adiante, andar pra frente, sair de si e meter-se, comprometer-se, com a
relação com os objetos presentes no espaço externo.
As coisas estão no mundo,
morena.
É que eu preciso aprendê-las.
A sustentação do macho é objetal,
externa, social, relacional. Ele é um coisa/objeto em relação ao outro.
Ele foge da refusão simbiótica,
sempre proposta pelo poço ctônico da indiferenciação com o qual a mãe
constantemente o convida.
A sustentação da fêmea é basal,
jazigo, instalação estática e absorvente.
Toda mãe é capturativa: cinóica,
cináica. As mães podem ser abandônicas, depreciativas ou rejeitantes. Outro
tipo de mãe devastadora para o filho é a superprotetora, invasiva, super
solícita, que sufoca o filho com um excesso
lodoso de solicitações e de ofertas.
Tais mães cenosas, formadas da lama, provém do lodo e da sujeira de
super bem mal querer. Mãe imunda, suja, obscena, lodosa, lamacenta, ctônica, pantanosa,
adesiva e capturante. Aquela que está empenhada em fazer o filho fracassar e
morrer.
O filho homem tem que se afastar
rápida e fobicamente da mãe Medusa, mãe fatal, evitando ser enredado no matagal
da natureza. Aquela que dá a vida também pode bloquear o caminho da formação da
identidade masculina e da sua liberdade. Mãe mulher leva à captura, à
infantilização física e emocional.
Os homens expulsos de mãe estão
obrigados a vir a procurá-la, de novo, mais tarde, por meio do sexo. Então
mergulham no abismo que o acolhem: o infantilismo do heterossexualismo masculino. A liberação sexual nos trouxe um
presente caótico. Sexo é atolamento na mãe natureza. Homens são pobres diabos
deserdados do colo da mãe, trêfegos transeuntes pelas amplidões sem descanso do
mundo. Ermitões destituídos do termo aconchego, voltam para a natureza natural
bruta e áspera. Partem para a selva da vida, metem-se na luta pela
sobrevivência, desejam desfrutar todo o prazer – ilegítimo, legítimo, decente,
indecente – intempestivo ou inconveniente que estiver ao alcance de seu braço e
de seu pênis. Sim, pois macho possui uma insígnia encoberta, escondida: seu
pênis, seu membro viril. Assanhado, instilado de testosterona, endurecido, é
ele quem quer e que faz acontecer.
Daí o paradoxo do masculino. A
cabeça de cima orienta-se pelo claro olho solar apolíneo do intelecto ocidental
masculino. Visa a objetividade reta, direta, objetivada, lúcida e arguta. O
macho é assertivo, incisivo, cortante, penetrante, invasivo. Criativo e criador
de cultura.
A cabeça de baixo, por sua vez,
monócula e esguichante, imperativa e monotemática, ela só quer “aquilo”: o
coito, o bis coito... Não pensa: invade e impõe. Não protela: quer já, agora,
de qualquer jeito. É bombeador e bombástico. É a irrefletida cabeça de baixo
quem comanda o espetáculo.
Ao homem macho masculino cumpre
juntar seus componentes – parcos e precários recursos –, e ir adiante, sair de
si e meter-se com o alvo explícito de seu querer forte e, transitória e
compensatoriamente, mergulha nas farândolas, nas mixórdias, nos embondos das
coisas todas do mundo dos objetos externos.
Alguma coisa lá sempre encontra:
pedras, trigo, barro, leis, cidades, dinheiro, ciência, arte, instrumentos,
guerra, artefatos, dinheiro de novo.
Por ter colocado na testa uma
tatuagem: “Eu quero é rosetar”, e por não conseguir tanto, consola-se em
“Contínuo querendo”, embora não obtendo. A não ser vasqueiramente. Então,
contrafeito e emputecido, o homem edifica a civilização: cidades, leis, música,
artefatos, arte, ciência. Ainda que quase sempre, depois, quase as destroem.
O bicho homem é um mamífero dentado
perigoso. Sem contensão, sem peias, torna-se descomedido e mau: mortífero,
assassino. E sempre ladrão quando pode...
Só é bom sob comando de um poderoso
superior.
Em seu coração cabem varias
mulheres. Cada uma com seu sabor e especificidade. Ama uma, transa com outra.
Ginasta chinês, opera com várias. As atende por um momento, sempre pouco e mal.
Deixa a desejar. Não é romântico. É direto, claro, explícito. Agrada, mas não é
essencial. O que o atrai é perceber que a mulher é e está receptiva à sua
intrusão como macho. Homem quer mulher que dê, que dá para ele. O que vier a
mais, é lucro.
Homem quase não funciona com ideais
e idealidades. São toscos, pouco sofisticados, querem aquilo e só. Ou quase que
só. Homem gosta de mulher que gosta dele. Tal qual ele é. Sem tirar nem por. Já
disse e repito – homem não dá conserto. Jamais existiu cavalheiro andante,
príncipe encantado. Homem perfeito é ficção. E terrível para as mulheres: homem
maduro nenhum está a fim de realizar seus sonhos e seus ideais. Trair é termo
forte e tão antiquado quanto corno. Ciúme e possessão são venenos na relação.
Quer o sexo, o coito. O orgasmo é
seu acme. Depois do orgasmo é um desgastado, sem graça, uma bola murcha que
quer duas coisas: dormir ou ir embora.
Homem não é fiel. Está com você e
com mais sete. Péssimo ator, desdobra-se em fingir que só tem olhos e só quer
você. Qual o que / com seu terno mais bonito / quando sai / não acredito / quando
diz que não se atrasa. O fato de ficar olhando as saias, as coxas, o decote, a
bunda é que configura, para vocês, o mal caratismo, a postura cafajeste do
homem. No entanto é o cafajeste que atrai sua concupiscência. Exclusividade de
parceria sexual é uma invenção que puseram na cabeça das mulheres. Não existe
homem fiel, já disse. A não ser forçado com cadeado nas ventas e acorrentado
por mulher possessiva e paranóica.
Homem quer e precisa de várias.
Precisa de novidade. Quer excitação. Homem não dá pelota para maquiagem ou
escultura do corpo feminino.
Minha amiga, se eu fosse você, eu só
dava pra mim.
Minha amiga, sou homem bom e, as
vezes, até te amo. Sou cheio de pequenos e não consertáveis defeitos. Se você
for esperta, se ajeita comigo e dê graças a mim e a nós dois que nos amamos um
tanto, um pouco.
Todo homem é um galinho... E terrível: já se vislumbra um
futuro próximo em que cada homem deverá atender a várias mulheres porque a
hombridade e a testosterona estão se tornando escassas...
* Maiêutica é o método
socrático que consiste em formular uma sucessão de perguntas, induzindo o
interlocutor a descobrir suas verdades ou obter uma conceituação mais adequada
acerca de um objeto ou de um tema. Por meio desse método, Sócrates conseguia
que idéias mais apuradas fossem “paridas” no curso de um diálogo.
* João Bosco e Aldir Blanc.
“Foi-se o que era doce”. LP Canto dos
homens. MPB4. Rio de Janeiro: Philips, 1976.
* * João Bosco e Aldir Blanc. “O
cavaleiro e os moinhos”. LP Galos de
briga. Rio de Janeiro: RCA, 1976.
* Verdi. Rigoletto. Ato 3. “La donna è mobile.”
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