sexta-feira, 9 de agosto de 2013

BOM HUMOR



BOM HUMOR


Marco Aurélio Baggio



Ai de mim se não fosse eu.


            Já na estrada para Curvelo, vimos, enorme, no vidro traseiro de um desgastado Monza-jóia, este dístico genial. Óbvio.

            A dura, cruel e contundente realidade, batendo de frente, diariamente, em nossa cara, nos fazendo (quase) sentir dó de nós mesmos.


            Ai de mi

            Se não me queres

            Ai de mi

            Canta o solerte bolero.


            Então, vivendo em um mundo personalista, individualista, não solidário, no qual nós, sujeitos, não obtemos refresco nem colher de chá, temos, como o anônimo feliz possuidor do Monza, que tratar de cuidar, acurada e denodadamente, de nós mesmos. Sem remissão...



 


           

IRONIA: a semente do sabor




A todo momento, emprega-se a linguagem figurada, seja na norma culta, seja na forma popular. A linguagem coloquial utiliza constantemente, e muitas vezes inconscientemente, figuras de linguagem ou de pensamento de grande valor significativo. Entre elas, encontra-se a ironia. 

            Como metáfora, ela é capaz de articular aspectos de idéias distintas. Tem a capacidade de nos surpreender. Liberta-nos da presunção dos ideólogos e faz brilhar a chama do intelecto. Ela nos catapulta para além da mediocridade dos pensamentos já pensados. A ironia é uma cunha que penetra no viés dos sentimentos humanos. Faz cócegas em nosso psiquismo, estimulando-nos a emitir juízos.

Sem a ironia, ficaríamos chafurdados no pântano enganoso daqueles que acreditam que a linguagem pensa, nós não.

            A presença da ironia na literatura tem por função demonstrar os contrastes, os descompassos e as incongruências que há entre as coisas.

            A ironia indica as contradições que descolam uma verdade de outra, permitindo o deslizamento do sentido ao longo de uma seqüência lingüística. Pode ter uma função catártica, quase sempre humorística e engraçada. Também pode ter uma finalidade pedagógica ou mesmo filosófica, quando então, etimologicamente, ironia quer significar “ação de interrogar fingindo ignorância, dissimulando não-saber”, acicatando o interlocutor a prosseguir em sua argumentação até cair em contradição e, assim, ter de constatar uma outra verdade maior.

            O que nos interessa é a ironia vivaz, sutil, insinuante, que introduz em nossa mente o delicado fluir de múltiplos sentidos pelos quais transitam as relações humanas e as transformações por que passam as coisas do mundo. Naturalmente, a ironia pode assumir aspectos diferentes, dependendo da intenção do emissor.

            A ironia tingida de desdém ou menosprezo é a zombaria, a caçoada ou troça, o motejo, o remoque, o gracejo. É irmã do escárnio.

            Já a ironia com intenção ultrajante, desmoralizante, tem por nome o escracho, a esculachação, a esculhambação.

            O deboche é a ironia acerba, que se refere a uma situação de vida dissoluta, corrompida, acintosa ou pervertida.

            A ironia distingue-se da anedota. Esta refere-se a fato menor, pitoresco ou jocoso, sobre algum acontecimento curioso. Etimologicamente, anékdota, proveniente do grego, significa “coisas ou fatos não publicados, inéditos, mas cheios de interesse”. Anedoto é o “não publicado”. Com o passar do tempo, o termo assumiu outras conotações.

A piada é uma história curta, com final surpreendente, temperada, às vezes, com obscenidade, escatologia ou algo picante, cujo objetivo explícito é provocar o riso.

            Chalaça é o dito espirituoso, gracejo, motejo ou zombaria, às vezes de mau gosto. É a popular “gozeira”, que geralmente deixa irritado o interlocutor.

            O chiste é o dito espirituoso, eivado de fino humor. É a pilhéria, a facécia. Engraçado e gracioso, o chiste captura a junção da ambigüidade das frases, exibindo suas contradições. É sempre lúdico, brincalhão.

De todas essas formas de comunicação, em que está presente o objetivo de provocar o adversário, a ironia aparece como a figura mais interessante, mais instigante e, certamente, de maior efeito. Pela sua entoação, pelo seu contexto, pode ser um meio ferino de insultar o interlocutor e alcançar a reação desejada. À ironia cáustica, dilacerante, dá-se o nome de sarcasmo.

Ironia é dizer claramente uma coisa, querendo significar outra. É afirmar uma verdade facilmente aceitável e, sutilmente, insinuar uma outra verdade, menos palatável, mas quase igualmente irrefutável.

            A ironia é o tempero da vida. Ela é o componente diferencial que dá perenidade à alta literatura. Ser irônico é ser vivaz, farfalhante, inteligente.

            Ironia é algo coscuvilhante que se passa em nosso interior psíquico, movendo-nos para adiante. É apercepção incisiva, porém sutil e eficaz, na qual desconcordamos de um algo de verdade que se passa em nosso interior.

            Insinue sua ignorância sob algo óbvio, tal qual Sócrates se tornou craque em fazê-lo. Com isso, ele capturava a atenção e a subjetividade do interlocutor, que emitira uma afirmação. Pronto: desabava a armadilha. Sócrates contestava-o a partir daquilo que o oponente havia dito. Com espiritualidade e argúcia, desenvolvia argumentos de acordo com a maiêutica*, que expandia as possibilidades conceituais do tema. Assim, alcançava-se um pensamento novo, dissonante, irônico, altamente interessante, que atingia então novos níveis de sabedoria.

            Ironia tornou-se algo difícil de ser apreciado em um mundo onde prevalecem a contracultura e os teóricos do Ressentimento, com sua monomania de que existe uma “energia social” vigorando no Historicismo, na Rede Mundial de Informações.

            No entanto, tudo é ironia nessa nova era de guerra religiosa e econômica e de terror por toda parte.

            Uma pseudo-objetividade canhestra parece querer tomar conta de todos e de tudo, oferecendo em profusão pensamentos avelhantados e informações aos bilhões, sem nenhum processamento hierárquico de valor.

            Como mecanismo de defesa de alta sensibilidade, a ironia é o sal da vida, o tempero da sensaboria do cotidiano. Ela mantém-se quase sempre como o hábil indicador que traça o caminho em direção à grandeza transcendental da sabedoria.

Largamente empregada por grandes autores, a ironia situa-se em lugar especial entre as figuras de estilo.“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.” 5:534               “Existem muitas ervas diversas, todas se misturam sob o nome de salada.” (Montaigne, Essais).6

            Jonathan Swift é o irônico satirista do grotesco, que derrete as superfícies e as aparências para expor a crua realidade dos seres humanos. O verdadeiro sentido do que afirma transparece ao longo do arrazoado do seu texto.

            A ironia permitiu a Bocaccio tomar como tema o próprio ato de narrar.

            Chaucer apercebeu-se da ironia como uma nova espécie de amor pelo mundo e pelos loucos picarescos que o enchiam de vida. Sua personagem, a mulher de Bath, tinha como lema: “Boca insaciável requer rabo insaciável.” 3:136

            Em Beckett, encontramos: “As nádegas quentes e amanteigadas  da Miss Cuniham?” 3:244

            Ou, parafraseando Qoholet (Coélet), o pregador do Eclesiastes: “O sol brilhou, sem alternativas, sobre nada de novo.” 3:243

“Todos cometemos erros, até Deus. Fixar os judeus na Rússia, onde são atormentados? Por que não na Suíça, cercados de lagos de primeira classe, ar de montanha e nada além dos franceses?” (Isaac Babel).3:814

            A ironia é politicamente incorreta. Por isso mesmo, é melhor e mais saborosa, uma vez que traz em seu bojo uma porção maior da verdade. Ela corre solta, debochosa, para além dos bem-comportados postulados reducionistas dos círculos acadêmicos e jornalísticos, hoje governados pelo puritanismo feminista. Isso porque a ironia quase consegue abarcar o conjunto de componentes presentes nas coisas. Tudo é e não é, mas pode ser que venha a ser.

 Tomem-se, por exemplo, os versos do grande compositor popular brasileiro Aldir Blanc:

Manco nunca perde o rebolado. 1:240

Pra ser sem-vergonha, basta ser decente

e quem vende saúde, possivelmente é doente. *

            Ou esse monumento, que serve de epitáfio:

            Eu baderneiro,

            me tornei cavaleiro, malandramente,

pelos caminhos.

Meu companheiro tá armado até os dentes

Já não há moinhos como os de antigamente. **

            Millôr Fernandes alerta: “A ironia do mundo é que toda pobreza é hereditária. Já a riqueza, quase nunca.” 4:265

            Maior cultuador da ironia fina, muitas vezes de fundo pessimista, Machado de Assis está sempre a surpreender com seus chistes, com sua verdade chocante. A dedicatória em Memórias póstumas de Brás Cubas 5 dá uma ligeira idéia daquilo que o leitor encontrará no texto:

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas MEMÓRIAS PÓSTUMAS.

            O mesmo Brás Cubas parece rir de suas decepções, como se a vida não fosse suportável sem uma dose de humor, ainda que seja contra o próprio autor da ironia.

O fecho de Dom Casmurro traduz uma ironia que esconde a dor do marido traído, apaixonado pela mulher de “olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada”:

E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve! Vamos à “História dos Subúrbios.” 5:942

            Os personagens de Proust são, essencialmente, gênios cômicos; como tal, dão-nos a opção  de acreditar que a verdade é tão engraçada quanto cruel. 3:176

Henry James escreve:

Se Deus existe, é por causa de nosso apego à idéia de imortalidade. Queremos uma garantia qualquer de que haja uma imortalidade de qualquer maneira. A religião, seja ela qual for, significa imortalidade. Se os nossos ideais só recebem atenção na eternidade, não vejo por que não delegar-lhes a supervisão a terceiros.3:770 

           

Quanto às eloqüentes trombetas de Alá, a resposta shakespeariana  poderia  ser:  “Ora, sim, por brincadeira, com certeza.” 3:360

            Vivemos em um momento de terrível ironia, quando uma cultura fracassa em todos os seus aspectos conceituais – na filosofia, na política, na religião, na psicanálise, na ciência e até na globalização – vê-se compelida a se tornar literária, ao estilo da antiga Alexandria. 3

            Nosso mais sofisticado ironista nos mimoseou com a preciosidade:

Tudo é incauto e pseudo. As flores sou eu não meditando. Mesmo o de hoje, é um dia que comprei fiado. 7:168

           

Segundo Harold Bloom, “destituída de ironia, a leitura perde, a um só tempo, o propósito e a capacidade de surpreender.” 2:23

Ironizar é preciso. O humor é um dispositivo muito eficaz para amortecer o mau hálito da vida.



Referências



1.      BLANC, Aldir. Porta de tinturaria. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.

2.      BLOOM, Harold. Como e por que ler. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

3.      ___________ . Gênio: os 100 autores mais criativos da história da literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

4.      FERNANDES, Millôr. Millôr definitivo: a Bíblia do caos. Porto Alegre: L &PM, 1994.

5.      MACHADO DE ASSIS, José Maria. Obras completas. 3 vols., Rio de Janeiro: Aguilar, 1962.

6.      MONTAIGNE, Michel Eyquem. Essais. Paris: Nelson, Éditeurs, s/d.

7.      ROSA, João Guimarães. Tutaméia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.





O cerne do humor.


            Uma piada se faz com um enunciado breve porém incisivo, que chama a atenção dos circunstantes. Logo é seguida por uma ou duas frases performáticas, proferidas como mandatos que se impõem à mente dos interlocutores, criando uma seqüência de encadeamentos lógicos que induz determinada expectativa.

            Um cenário é esboçado, expondo uma situação humana corriqueira. Cria-se um clima, um pathós ou uma intenção que irmana em sintonia o psiquismo de todos. Alguns decalques podem ser acrescentados para bordar o relato. Mas não são imprescindíveis.

            De repente, quem está contando a anedota causa uma fratura. Rompe a seqüência. Quebra o raciocínio esperado. Acontece uma inesperada, surpreendente reviravolta no relato. Como se fora uma cambalhota, um revertério. Pura pirlimpsiquice. Todos caem de bunda no chão: palhaçada cômica.

            Introduz-se com força e com imperiosidade o estúrdio, o insólito, o jamais pensado, o raro, aquilo que nunca aconteceu. Um efeito de absurdidade ou de estranheza é seguido pela percepção, em elaboração secundária, de que a pirueta mental, o revolver com o inesperado incide sobre o psiquismo dos presentes, produzindo um efeito de surpresa e de inteligência, fazendo cócegas em seus neurônios.

            Uma vulgar descarga de dopamina acontece provocando o riso - ou a gargalhada -, e a inefável sensação de bem-estar. É quando ocorre a epifania do pathós irônico ou engraçado. Por isso sabe-se que rir é o melhor remédio para compassar e se vingar das agruras da vida.

            O cômico, o hilário, o drolático são contagiosos. E logo acendem o apetite de querer mais... Daí o rosário de piadas que costuma-se rezar nos ambientes onde prevalece o vagar e o amável convívio. Contar piadas é ouvi-las em curtição, é melhor do que falar dos 32 trilhões de dólares em derivativos que se evaporaram, queixar-se de doenças, de desastres, de corrupção, de pecados, de deus, de política, de canalhices ou comentar sobre as mulheres que não estamos comendo.

              A facécia, a blague, a chalaça, o deboche pode possuir um longo enredo descritivo, cheio de meandros ou de babados, elaborados enchendo lingüiça e preenchendo o tempo e o papel. Mas não precisa.

            O cerne, o âmago do deboche é sempre constituído por duas ou três frases performativas. Quanto mais insólito ou inesperado for o desfecho, mais saborosa é a piada.

            Aprendi que o humor cheio de graça pode ser curto, sintético, sucinto. Tal qual uma porrada em jab. Daí ser desejável contar piadas bastante curtas.

            O máximo de arte é obtido pela concisão da anedota que se expressa em frase única.

Manco nunca perde o rebolado...

            Mulheres, comam homens de fibra...

            Macho não engole sapos, come pererecas...

            Psicanalista não aceita conversa fiada.

            Sexo grátis, amor a combinar...

      Vagina é um canal macio que une o útero ao agradável.

            Sexo sujo? Só quando é muito bem feito...

      Enfermeiro argentino foi expulso do banco de esperma por beber em serviço.

            Menino de dez anos ao flagrar os pais fazendo um 69 exclama: - E vocês querem me levar ao psiquiatra só porque eu como as unhas!

            Peido de rei é gás nobre?

           

A piada explicita o curioso, o instigante, o abusado, o sacana ou o corruptor do bem posto. Toda anedota é desavergonhada e desalinhavada.

            Não existe anedota ou piada saborosa no universo puritano norte-americano do politicamente correto. O gracejo possui sempre um sujeito que fala e propõe um tema. Uma ou mais pessoas que ouvem e perguntam, fazendo escada pela qual sobe o humor. Os circunstantes fazem papel de bobos ou de incautos, na alegre expectativa de obter uma boa conclusão do relato. São eles que terão suas expectativas defraudadas, sofrerão o tombo, a fratura. Mas obterão a alegria bem humorada do desfecho hilário bem apanhado, inteligente e sarcástico. A ironia é o sal que tempera a salada da ridicularia da vida de todos nós...  

O CÔMICO

Para Umberto Eco, o cômico está adscrito ao tempo imediato de interação. Comete-se o cômico mediante a transgreção de uma regra que não è citada mas permanece ímplicita.  Um outro, ator ou interlocutor, que não nos inspira maior respeito, perfaz uma atuação em súbita quebra de normas consensuais.Daí nos deliciamos ao vê-la violada, sem culpa ou risco nenhum para nós. Assim, uma cena explícita na qual a norma é fraturada, violada sem motivos, se torna hilária. O cômico é liberatório e subversivo porque ousa  transgredir  a forma usual  de conduta esperada.


               O humor desperta o  inaudito, o impossível, criando um novo que faz cócegas em nossos neurônios.


Amor de sereia


            “O nome dela é Iara.

            Morena, meã dindinha, 35 anos, nem feia nem bonita, corpo desfrutável, programadora de eventos. Conheci numa roda de samba. Dança bem, com remelexo. Despertou meus brios de macho conquistador. Julguei ser presa fácil. Fez visagem, me passou rasteira. Prometeu para depois. Bobo, besta, cai no seu anzol. Enfunado de desejo, armei meu jogo. Peguei um avião em Teófilo Otoni às 18 horas, desci em Campinas às 20 horas. Aluguei um carro e parti para Americana. Bati na campainha de seu apartamento às 22:30, coração bão, opresso, taqui e adrenérgico. E se ela não estiver? E se estiver acompanhada? De um namorado ou amante, que seja? Homem quando quer é babão, é bobão, é atrevido, é galão.

            Ela atendeu espantada e logo, eufórica: - Você, Oscar? O que veio fazer aqui?

            - Vim te ver, te visitar... Não te disse que viria?

            - Então você é dos que cumprem suas promessas? Entre, assente, seja bem vindo...

De penhoar, cabelos fascinantemente soltos, desgrenhados, chinelinhos de quarto, mal dera tempo de borrocar um batom enquanto ele subia os três lances de escada.

            - Um café? Que bobagem. Uma cerveja? Também não... você gosta é de uísque... tenho um 12 anos: Old Parr. Serviu uns tremoços. Colocou um Djavan, abaixou a luz e deram início aos trabalhos eróticos.

            Ele, voraz garanhão de 1.85 metro, moreno de sorriso escanchado, logo estava de pau tenso. Experimentado, na sua 107ª mulher, pressuroso, num átimo pensou: “Tá na caçapa.”

            E beija daqui, mão ali e acolá, cometas percorrendo os céus das bocas, arfantes entre ais e uis, esfrega em cima, lambe o pescoço, olhares languidos... Tudo no embalo do tesão.

            À caça a desabotuadura do sutiã, enfim dois magníficos seios libertos da contenção, passados para outras mãos massageadoras. Os trabalhos de amor prosperam naquela volúpia que mantém acessos intenção e gesto. Da primeira para a segunda dose, de Djavan para Chico Buarque, daí para Maysa, a qüinquagésima massagem nos peitos, o vigésimo sétimo beijo “desentope pia.” A quarta tentativa de enfiar a mão esquerda pelo rego da polpa...

E ela, sestrosa, gentil, dura: - Ai, não!

            Quis forçar, corpanzil 3/2 maior que o dela. E ela, languida, porém imperativa: - Não!... Tira a mão daí!

Merda! Pensou ele. Continuou nas preliminares. Olhou o relógio: 2 e meia da madrugada.

            - Então com o que, senhor seu Oscar, o senhor é casado?

– Sim, sou... conteve-se para não enveredar por aquele papo cretino ‘de que era incompreendido, que seu casamento ia mal, que ele e Vera há meses não trepavam...’ Sabia que com Iara isso não ia colar.

            Ela então cresceu, subiu nas tamancas, venceu o jogo: - Comigo o que o senhor vai obter é, no máximo isso: amor de sereia. Caricias e indecências libertinas só da cintura para cima...

            Puta que me pariu, pensou ele. Em que fria fui entrar. Atravessei o Brasil só para isso? Não se deu por vencido, no entanto. Lascou mais uns três ou quatro argumentos apelativos, já convicto que eram tiros de festim.

            E ela, Iara, impávida, colosso, glorial, assegurada, mandou ver sua vingança de coroa mais de uma vez seduzida e abandonada.

            - Minha religião não permite que eu transe com um homem casado. Mesmo que seja um homem tão gentil e carinhoso como você. Gostei de sua estampa desde o primeiro dia em que te conheci. E estou comovida, encantada mesmo, com sua visita súbita, as flores, o cartão, a caixa de bombons Garoto. Parece até que sou uma brega argentina, não é? Mas não, sempre condenei minhas amigas que saem e dão para homens casados. De mais a mais, por vituperá-las, não posso dar para você.

            - Só amor de sereia? gemeu ele.

            Falso, vendido sussurrou: Bem, só isso já valeu a viagem, foi ótimo...

E foi assim, mais do mesmo, até às 4 horas da matina.

            Ela arrumou a cama de hóspede. Dormiram. Às 11 horas ele acordou, Café da manhã com romã e abacaxi. Despediu-se com mais um ardoroso falso beijo. Atravessou São Paulo. Embarcou em Campinas, desceu em Teófilo Otoni.

            - Como foi a viagem em São Paulo, beim? Sonsa, quis saber Vera.

            - Ah? São Paulo? Legal... tive bons contatos... resolvi o que precisava para a empresa...”

            Eu, seu terapeuta:

- Amor de sereia? Desconhecia essa...

            - Mas hoje a noite, ela está na cidade, já marcamos encontro, vou com tudo, cheio de esperanças, vou quebrar as resistências dela!

            Não tive mais notícias deles. Eu aposto que ele não vai comê-la. Mulher que nega, não sabe não, tem uma coisa de menos no seu coração.

            De mais a mais, o superego das mulheres é lasso e perverso para tantas putarias mas é extremamente rígido e empedernido para tantas poucas coisas.

            Quando a mulher entesta de defender uma tese pseudo moral, ela refulge de vanglória, torna-se impenitente e invulnerável, brandindo uma prescrição moral “correta”. É como se dissesse: Dou para qualquer um, menos para você, simpático Don Juan casado. Semana que vem vou saber no que deu esse charivari.

            Você apostaria diferente de mim? Mulher possuída por uma tese na cabeça, torna-se guardiã da moral e dos velhos costumes. A conferir.              



Tango Tropical.


             Carlos amava Dora e era por ela correspondido. Casaram-se. Foram felizes e infelizes, misturadamente. Com o tempo, Carlos percebeu que o casamento não resolvera seu desejo sexual. Dora, por sua vez, sentira que não preenchera seus anseios românticos. Um dia, Carlos se envolveu com Lia que também partilhava o mesmo drama.

            Os dois casamentos se equilibraram num tripé, assim misturados, por uma dúzia de anos. Por vicissitudes várias, um dos casais separou-se antes. Quem era amante, continuou tão somente a sê-lo. O mundo gira e a vida roda.

            Carlos, macho, durão, após muitos anos, enternece-se e se envolve mais e mais com Lia. Ambos passam um ano sensacional num conluio secreto. Aí um dia, o acerto desanda. O telefone toca, a voz dela é apreensiva:  - Preciso muito falar com você... Hoje ainda...

            Nunca houvera disso. Ele intuiu: - Deu xabu.

            No encontro, ela embargada diz:

- Estou te deixando. Sinfrônio... eu te disse... andava me mandando poemas e flores e bombons...

            - Mas e o nosso amor Lia?

            - Não tem “mas” não. Ele disse que quer viver comigo, ter uma relação plena, total, completa, entende? Garantiu que não quer ter só um “caso” comigo. Eu mereço isso, Carlos. Você compreende? Ainda quero ser feliz e não ficar nessa relação clandestina, escorraçada, com você, essa coisa esquisita que não ata nem desata...

            - Mas querida, e nossos planos? Nossa cumplicidade, como fica?

            - Tomei decisão. Eu que sempre fui uma Maria-vai-com-as-outras. Desisti radicalmente de nós dois. Eu te tenho na maior consideração, sei que você me ama e é meu verdadeiro amigo. E continuará sendo. Mas chega. Quero viver outras emoções, experimentar outros temperos...  Sinfrônio disse que eu sou a mulher da vida dele...

            - Mas, e eu como fico nisso?

            - Você se vira. Tem a sua Dora. Ou Rita. Ou Izaltina, sei lá...

            Carlos engole um sapo seco. Percebe o tom peremptório de sua ex-doce amante. Só constata:

            - Então, eu te perdi?

            - Perdeu. Você me deixou muito jogada ultimamente...

            É fato. Ele se tornara rotineiro, previsível, como de regra, são os maridos. Para fato consumado o que resta é acionar o repertório das racionalizações.

            - Vou chamar no pio, como ensinou Lalino Salãthiel. Esse cara não vai se agüentar. Homem que promete muito, como Dom Juan, desencosta e cai num par de meses...    

            - Ela vai experimentar e não vai gostar...

            Logo Carlos percebe que desse “Porto”, ela já provou e gostou... 

– Bem, quem sabe, talvez um dia... elas sempre voltam. Amor de pica é o que fica...

            Consola-se. Logo lembra que a infidelidade não é dela ou dele: nós simplesmente nos enfastiamos de nossos amores. Um desaparta antes. É regra. É matemático.

            Os dias passam cheios de chumbo até que, certa manhã, ele sonha que uma mulher diáfana, insinuante, surgiu da bruma e de graça, a ele se entregou. Depois, de graça, ela se foi...

            Carlos aprendera que tempo de casa, grau de afinidade, juras, intensidade de envolvimento sexual, cumplicidade de maledicências sobre amigos comuns, projetos compartilháveis para o futuro, tudo isso tem valor relativo. Nada segura a relação contra o cansaço de um quando um terceiro investe com uma “proposta cheia”. Mesmo, que sabidamente, inconsistente e mentirosa.

            Lia não era diferente. Sob pressão, dera de jogar tudo para o alto e o que apurasse seria saldo.

            Mulher arrebatada em paixão, depois de bem treinada como fêmea e bem constituída como mulher, pula do trapézio sem rede de proteção. Mulheres são loucas pelo amor.

            Durante meses a relação Lia - Sinfrônio dará muito certo. As rodas sociais da cidade primeiro se escandalizaram, depois absorveram e abençoaram o lindo casal. Até que um dia, Sinfrônio - Don Juan, encontra W. C. Fields, aquele beberrão cínico que o admoestou tarde demais:

Nunca tente impressionar muito uma mulher porque, se você fizer isso, ela esperará que você mantenha aquele alto padrão pelo resto da vida.

            Quando enfim, ela volta, Lia já é outra. E Carlos também. Comem aquele mexido do que sobrou de suas antigas refeições e bebem aquele café requentado. Alguma coisa ainda se encontra. Insossa, embora.

            Nesse interregno, Carlos aprendera com Ambrose Bierce que:

Dá-se melhor com as mulheres aquele que sabe se dar bem sem elas.

            Portanto, a mulher que você treina em amor, sexo, romance e convívio, um dia irá embora, seduzida por um cara que lhe diz psilones na orelha, compõe versos e manda “corbelhas” de flores com devoção.

            Ninguém tem garantia. Vive-se por precisão, não por boniteza.

            Mas também, que alívio sair limpo de uma boa velha confortável relação amorosa, sem nenhuma culpa, sendo abandonado e ficando com as glórias de ainda poder lamentar. Entre a quarta e a quinta década da maturidade de vida, a experiência mostra que é melhor ser abandonado por um antigo querido amor do que causar a revolta e a amargura ao abandoná-la.

            Para cada ilusão que se vai, há sempre outra rondando a porta. O amor é como o câncer: sempre dá recidiva...

            Como ensina o capiau mineiro:

Em terra de Zé Prequeté, homi que é homi não bobeia.             Pra isso é preciso ter sempre mais de uma muié...

            Dora e Lia amavam Carlos que amava toda a quadrilha... Essa foi sua provisória garantia. E assim foi vivendo galhardamente, desiludido e desmisturado...




Para que serve um homem?


            Intrigou-me outro dia saber o que as mulheres querem do homem. Qual é a serventia deles para elas? No mínimo o que elas de fato obtêm ao conviver conosco? Que vantagens Maria leva? Passei a interpelar meus amigos de ambos os sexos e arrolei os seguintes fatos.

            Homem serve para trocar lâmpada, para trocar pneu de carro, desentupir privada, consertar torneira pingando.             É prestimoso ao abrir a tampa de lata de cerveja, poupando assim as unhas bem cuidadas de sua mulher.

            Serve para abrir a porta do carro, abrir latas de sardinha, abrir tampas de vidro na cozinha. Homem serve ainda para dar respaldo/proteção/garantia e acolhida em seu alto e forte ombro à mulher sozinha, perdida e fragilizada.

            Serve para escrever e ofertar belos cartões com mensagens românticas falsas.

            Homem serve para levar a mulher da hora aos lugares mais tresbundantes e mais exclusivos, que só ele tem acesso.

            Serve para levar para jantar em restaurante caro, para pagar as contas de supérfluos, serve para oferecer jóias, flores, sapatos e bombons.

            Homem tem serventia para dar à sua amada mulher a ilusão de que ela comanda a relação e que ele vive “exclusivamente” para fazê-la “feliz”.            E “quase” que ele consegue. Pelo menos durante algum tempo...

            Homem serve pela amizade e pelo companheirismo que se estabelece com sua mulher. Ambos tornam-se cúmplices diante da dureza da vida.

            Vamos transformar o mundo numa trepação só, me disse gentil senhora. Homem está com você e mais duas, informou-me outra dama da sociedade.

            Homem serve como mentor e referência mais abalizada para lidar com a realidade concreta das coisas todas do mundo externo. Nesse campo, o homem, de regra, é mais treinado e mais habilitado do que ela, a mulher.

            Homem serve para ensinar a mulher as muitas outras coisas da realidade e do mundo externo  que ele sabe mais do que ela.

            Serve ainda para mijar fora do vaso e emporcalhar o chão do banheiro. Parece que, pelo fato da cabeça de baixo ter apenas um olhinho, eles quase nunca acertam aquele enorme buraco oval do vaso sanitário. Conforme se diz em Santana do Pirapama, homem velho serve para fazer apodrecer o bico da botina.

            Uma utilidade universal que toda mulher casada reclama é que o homem serve para espalhar as páginas de jornal pela casa toda.

            Também ele é útil para deixar a toalha molhada após o banho no chão ou em cima da cama.

            Definitivamente, as mulheres sabem que homem não presta para discutir a “relação” nem para conversar “borrachinhas”. Frequentemente quando elas estão falando eles fazem aquela cara de quem está olhando a paisagem. E se interpelados eles dizem, sonsos:

- Hein?, o quê?, o que foi, beemm?...

            Jamais utilize um homem como seu confidente, a menos que ele seja bicha ou amante. Sim por que:

            Dormimos juntos/sonhos separados/

que nos não vamos confessar de modo algum...

            Homem serve para suportar os faniquitos de sua histérica mulher, colocando-a no colo, deixando ela se esparrodar em pleno piti, dando um show de descarga, terminando naquele chilique em que é campeã.       

Ele tolera seu siricutico, mal escuta suas lamurias, adotando uma atitude cordata e calada,e ainda, muitas vezes, fazendo aquela indefectível cara de quem está mirando o porvir...

                De repente, ele se sente de “saco cheio” e fica bicanca. É quando então explode num esporro monumental que faz calar sua “deusa” e a assusta. Ela prorrompe em choro soluçante, geme que ele é um bruto, um grosso, um machão. Retrai-se ofendida e passa uma semana macia como seda. Daí deduz-se que o bom da vida é só após o estrilo. Que tristeza!

Homem serve para ela descolar-se da ilusão de que aquele portentoso assegurador de sua insegurança possui, lá no fundo, um babaca, ridículo e sem graça sujeito, a quem ela dá o melhor de si. Até desencantar-se dele.

Homem serve para dar respaldo, confiança e certeza ilusória de que ela está amparada e protegida pelo senhor seu marido.

Homem serve para banzar, flanar pela aí. Preso, na gaiola, ele não canta bonito e gostoso.

            Mulheres sabem que possuir um homem e com ele transar é o melhor antídoto contra o engordamento sem volta.

            A maior utilidade do homem para a mulher é ela possuir alguém de quem ela pode criticar e reclamar, sempre, para as outras mulheres.

            Homem cumpre o curioso papel de servir de álibi para que certas mulheres tenham a quem imputar sua dependência, seu comodismo ou sua infelicidade. Enquanto cuidam deles, elas se sentem empregadas e não precisam se dar a canseira de cuidar da própria vida.

            Homem macho masculino, cheio de hombridade, é dotado de um grave defeito: gostar de mulheres. Pois se não apreciasse o gênero, com certeza, eles nem as cumprimentariam...

O único homem que presta pois é o que excita, é o bandalho, o cafajeste, ou o epiceno. O canalha se revela desde o início dizendo:

- Eu não presto, mas acho você um tesão.

Assim, incita na mulher a certeza do quanto ela pode ser, gostosamente mulher. Pois é ele que aciona as mais deliciosas fímbrias da excitação sexual.  

Homem serve para transar gostoso e para introduzir sua amada mulher nas artes do amor a dois compartilhada, em plena cumplicidade...

Ah! Homem serve também para empurrar carrinho no supermercado, enquanto sua deusa amada locupleta-se em escolher as marcas mais exclusivas...            Descobri ontem, em pleno insight:: já notaram que só homem serve para carregar caixão de defunto?

Com estes poucos e prosaicos serviços, entende-se porque, com razão, quase todas as mulheres vivem tão insatisfeitas!




Mulheres Desativadas


            “Ao sair dessa crise de horror em que me tornei pastora evangélica, doei todo meu dinheiro para a igreja universal na explícita esperança de que seria acolhida no redil dos fiéis e que, além disso, estava fazendo um alto investimento nas coisas da casa de deus e, ele, portanto, me entronizaria entre os seus eleitos. Dei com os burros de açúcar nágua. Quebrei a cara. Me desproduzi. Virei uma louca tonta, delirante e incerta descrente. Iludida e enganada. Você, sei lá como, me tirou dessa loucura. Te agradeço. Mas te cobro. E agora? Quem sou eu? Uma banana, uma porcaria de esposa desativada, de filha ingrata, de mãe desempregada e desnecessária, de ex-funcionária que não deu certo ou que não teve continuidade em uma dúzia de atividades. Tudo era pouco para mim. Sai pelo mundo buscando a grandeza, o êxito, em busca daquela parte que eu supunha que me cabia e que estava à minha espera. Desencantada com meu casamento e com minha cidade, sai para alçar novas conquistas. Tudo redundou em falimento.

            Voltar a ser esposa? Nem ele nem eu queremos mais. Não há liga, não há atração. O amor e o tesão evolaram há muito tempo. Meus filhos já não mais precisam de mim. O que ainda posso lhes oferecer, eles recebem mal. Ou então recusam agressivamente. Trabalhar? Em que? Quem vai querer dar serviço a uma mulher de 50 anos que não sabe rigorosamente fazer coisa alguma? Voltar a fazer aquelas bobaginhas que eu chamava de arte, de artesanato? Pra que? Voltar a me apaixonar por um bispo? Nem pensar: fui seduzida e trapaceada da maneira mais torpe possível. São um bando de falsos, de vendilhões de falsas promessas.

            Cuidar do patrimônio da família? Não sei administrar. Nem sei por onde começar. Melhor me acomodar e deixar como está tudo, nas mãos de meu pai.

            Assim, eu agora constato com tristeza a dura realidade em que me encontro. Sou uma esposa desativada. Uma mulher posta à margem do mercado erótico. Não sei paquerar, sair ai pela noite. Ninguém me ama, ninguém me quer. Ninguém mais me chama de bonitinha, de gostosa. Muito menos, de querida! Acabou, por decurso de prazo, minha função como mãe. Também já não sou mais dona de casa. Não tenho vida própria. Desmantelei meus cabedais. Acho que vim a este mundo por engano. Estou colocada por fora da realidade que vigora ai fora.  E pior, não sei como penetrar dentro dessa realidade. A mim falta todo tipo de interação social. Ao se desfazer a estrutura insatisfatória com que eu vivia fiquei vazia, fiquei sem função. Para que eu sirvo? Para nada. O que tentei, falhou, faliu. For ever living, herbalife, nature sunshine, amway, avon, mary kay, butiqueira do Paraguai, tentei de tudo. Sou uma pessoa vazia, sem chão e sem função. Aos 50 anos, sou uma mulher DC10: grandona, vistosa, que já foi muito útil e muito querida mas hoje caminha para o cemitério dos aviões anti econômicos, a serem desativados.”

            - Você me faz lembrar uma música do primeiro Chico Buarque: Lua cheia. De 1967. Seu deus e seu ideal não vieram de lugar algum.

            Sua voz, sua viola chora queixas que só eu consigo ouvir. Você quer abrir seu peito, sua vida, cantar e ser feliz. Mas a vida não se integrou, não colaborou. Você ficou triste, pudera. Você navegou mares tão diversos, tão dispersos. E assim você terminou sem versos, e ficou em vão.

            É lindo. É triste. Mas é adequado: cabe perfeitamente.

Corre assim:

Mas você me navegou/mares tão diversos

E eu fiquei sem versos/ e eu fiquei em vão.


Entre 42 e 55 anos, as mulheres que foram esposas amadas, donas de casa extremosas e mães dadivosas e que tentaram alguma atividade artística, comercial ou estudantil diletantemente, se pegam falidas, encostadas, desativadas, arremessadas na pilha de seres humanos marginalizados, a caminho do enferrujamento pessoal, rumo ao desmantelamento futuro. Esta é uma armadilha existencial que está montada em nosso tempo, em nossa sociedade.

E ninguém te alerta para esse agente roedor de carne e de gentes, chamando projeto Brasil. Abre o olho, dona: viver é sem garantias. Nobres funções humanísticas exercidas com tanto amor, empenho, carinho e bondade tem prazo inexorável de duração. Esposa nem tanto, pode durar mais, mas ser mãe e ser diletante tem sua obsolescência programada, tal qual os carros fabricados pela General Motors.

Esse nosso mundo capitalista fascinante não foi feito para as mulheres.

Pres´tenção minhas amigas queridas, todas vocês. Não se iludam quando a mídia propala que, como “jardineiras”,

Não fique triste que esse mundo é todo seu / tu és muito mais bonita que a camélia que morreu.

Este mundo não é de ninguém. Menos ainda de vocês, mulheres. Ele é duro e impérvio como casca de ovo que precisa ser bicada por todos nós, homens e mulheres, quando é tempo de sair da comodidade simbiótica do ovo da inocência e da ingenuidade diante da vida.

Bicar é preciso. Não dá para viver acomodada por 90 anos...

Ser mãe é profissão, é nobre ocupação por 20, no máximo 25 anos. De repente, a mãe está desempregada. Beleza e formosura, turgor e fofura acabam ai pelos 50 anos. Depois, é muxiba pura. Isso se não engordar e virar uma obesa, uma avantajada matrona. 

A beleza feminina é outorgada pela natureza em leasing, um empréstimo com prazo de apenas duas ou três décadas de duração.

Sem companheiro constante, rolando pelas noites e madrugadas sombrias, com uma vida sexual parca e aleatória, acumulam-se sucessão de desencantos que, logo se condensam em amarguras. Seu discurso inclui sempre a vituperação ressentida sobre aquele ou aqueles que desistiram de partilhar com ela um projeto de vida em comum.

Tristemente caminhando para se tornar uma caricatura daquela moça que foi, percebe, secretamente, que sustenta em seu íntimo, as alcandoradas expectativas românticas de vir a ser descoberta e amada por um homem dotado de todas as qualidades que seu ideal sempre concebeu. Homem esse que jamais existiu no time corriqueiro dos machos da espécie masculina. O desacerto e a frustração relacional são quase inevitáveis, portanto.

A maioria das mulheres desativadas está desempregada. Seu sustento econômico-financeiro costuma ser precário, situando-se bem abaixo do desejável e do que um dia já foi. Os caminhos que encontram para se manter são: o uso abusivo da comida ou do álcool. Umas tantas caem na volúpia da renovação semanal de parceiros sexuais. Muitas apegam, caninamente, às superstições e às falsas práticas “alternativas”. Crédulas, tornam-se consulentes de cartomantes, de videntes, de pais de santo, e quejandos... Outras transformam-se em verdadeiras “bruxas” modernas. Uma grande parcela torna-se carolas fanáticas de igrejas evangélicas. Outras tantas, apegam, aferradamente, aos filhos como o último galardão de suas vidas.

Mulheres desativadas é o equivalente no gênero feminino ao homem desempregado, fracassado, posto à margem da vida, sem amparo ou guarida, infeliz ex-mantenedor de uma família.

Nosso sistema social, cristão, industrial, urbano, capitalista, midiático, ocidental, é pródigo em criar um exército de excluídos de sua mesa e de suas Bolsas principais. Os homens sempre souberam disso. As mulheres, para desgosto de todos nós, estão descobrindo isso agora.  

As mulheres estão aprendendo a duras penas, que tudo muda, nada tem perpétuas garantias e, portanto, é inadequado e contraproducente acomodar-se, deitada em berço esplêndido. Se durante anos ou durante uma ou duas décadas ela desfrutou do conforto de viver com custo zero e benefícios altíssimos, lá um dia, o marido cansa dela e da relação, que ambos vinham mantendo, a abandona e vai embora. Olha lá se deixa uma “pensão”. Se acaso ela não se construiu como pessoa autônoma, capaz de se autossustentar, afetiva e financeiramente, corre o risco de ver descair-se em plano inclinado sua existência. Não se pode esperar que o outro – amor, marido, amante, companheiro –, zele por sua segurança e assopre constantemente sua autoestima. Seu autorrespeito e sua autoconfiança deriva de seu poderio interno. Ou não. O outro será sempre seu zelador sem cuidado. Ele – qualquer outro elegido –, não é o fiador que dará respaldo perpétuo à sua existência. Não espere que sua segurança e sua autonomia estará nas mãos dos outros, por que assim sendo, você irá despencar. Sua força é interna, como sua beleza é explícita. Caia fora da armadilha de esperar que, morando, casando ou vivendo com fulano – o amor mor a fora da armadilha de esperar que morando casando ou vivendo com fulano - o descair em plano inclinado sua exist  de sua vida – você tem garantia de que será feliz. Não deixe que ele seja dono de sua vida. Saia da dependência psíquica. O amor e o viver com alguém só é bom, só é duradouro quando os dois convivem em uma melosa matriz na qual ambos são autônomos. Isso se mantém porque é agradável e prazeroso e aos dois convém. Lembre-se que o preço de estar e de desfrutar de sua gostosa pessoa é você quem põe. Contudo, viver é adquirir cabedais, desenvolver bons recursos pessoais. Para isso é preciso ralar, trabalhar, e pagar pontualmente os custos que a vida custa para os homens e para as mulheres ao longo dos anos.

É triste e é custoso extrair os memes, as epistemes, os objetos idealizados internalizados desde a juventude de que ser mulher é realizar nova versão da Branca de Neve ou da Bela Adormecida ou ainda postar-se como núbil Princesa a ser tocada pela vara fálica de um Príncipe Encantado.

Para as mulheres desativadas é duro cair na realidade do Real. Ou vice-versa.      

    Um tipo encontradiço de mulheres desativadas è dado por mulheres entre 35 e 55 anos, fortemente presas na armadilha de se empenharem em uma profissão absorvente ou estarem metidas em um empreendimento  pessoal   que suga toda sua vitalidade. Em poucos anos perdem a seiva de viver, tornam-se monomaníacas hiperativas, vivendo apenas para o trabalho. Sua sexualidade se esvai rapidamente: ficam desinteressadas do amor, evitam o intercurso sexual, chegando  a tornarem-se frígidas. No entanto, todas se declaram “ gostar demais de sexo.” O amor passa a ser um mero ideal a ser vivido lá longe, um dia, na remotidão, que se perde no fluir do tempo...  Aí, elas engordam...







Um harém na senectude


            Olhou através da vidraça e viu a chuva caindo, mansa e constante. Aquele tempo não o entristecia, mas o tornava melancólico. Trazia uma certa nostalgia. Havia vivido muito, 78 anos. Trabalhara o suficiente para ter uma grande e bela mansão, num bairro nobre, com um imenso quintal, cheio de árvores frutíferas, um jardim onde gostava de passear de manhã e verificar se havia uma nova flor. Estava sozinho, porém. O filho vivia em Rondônia e só aparecia uma vez por ano. Não ficara viúvo, separara-se de Edith havia muitos e muitos anos. Tivera muitas outras mulheres. O seu gosto pela liberdade, no entanto, impedira-o de levá-las a morar com ele. Queria o sabor de poder sair e não ter de dar satisfação a ninguém. Havia a empregada. Sim, sem Rosilda, não podia passar. Era boa, paciente com suas implicâncias, não faltava ao serviço. Sentia, porém, que tinha mais pouco tempo de vida. Quantos anos? Anos? Talvez nem um.

            Deixara de clinicar havia cerca de 15 anos. Não suportava mais ouvir clientes lamuriosos, que não traziam nenhuma novidade. Era apenas a depressão de todos os dias, que acometia 90% da humanidade. A psiquiatria o desencantara. Que diferença de quando havia começado a clinicar. Fazia parte de um grupo recém-formado, cheio de entusiasmo com as idéias de Freud. Com o tempo, verificou que havia pouca novidade. Tudo já havia sido dito. O tratamento não variava. Tome isso, tome aquilo. Funcionava com alguns. Com outros... falhava lamentavelmente. Nem gostava de lembrar.

            Poucos colegas ainda sobreviviam. Alguns haviam trocado a clínica médica por outra profissão menos desgastante e mais rendosa. Pensou em quantos ainda viviam. Poucos, Alberto, Rogério, Bragança, Ademir. Todos doentes. De alguns, não tinha notícia. Ademar fora para os Estados Unidos, Ronaldo, para a Suíça, onde se casou. Lucinda casou-se com um francês e deixou a profissão. Como estariam?

            A chuva agora estava mais forte. Eram dez horas da noite. Estava sem sono. Escrever? Ler? Passou os olhos pelas estantes. Quantos livros! Para quem os deixaria? O filho nunca se interessou por eles. Havia livro para todo gosto. Não só os da área psi, mas também de história, biografia, filosofia, mitologia, ensaios, romances, poesia, teatro. O seu mais forte desejo era o de aprender, de conhecer. Almejava o Saber. Não tinha, no entanto, vontade de nada. Resolveu fazer um chá. Depois se deitaria e talvez lesse um dos últimos livros que comprara. No dia seguinte... bem, no dia seguinte... era o dia seguinte.

            Dormiu mal, acordou várias vezes durante a noite. Às cinco horas, resolveu levantar-se. Leu o jornal. Nenhuma notícia nova. Os crimes de sempre, a voracidade das nações ricas, empobrecendo cada vez mais os países pobres, um ator preso por porte de drogas, busca armada nas favelas, o último escândalo político-financeiro do governo... Drummond tinha razão: - Eta vida besta, meu Deus!? Ou Couelet, o pregador: - Nada de novo sob o sol!

Foi quando o telefone tocou. A essa hora da manhã?

– Renato? É Matilde... (Matilde? Que Matilde? Deve ser alguma cliente...) - Estou ligando porque preciso muito falar com você. Foi em você que pensei hoje, logo que acordei. Aí, falei pra mim: Vou ligar pra ele. Saber como ele está. Quem sabe, a gente pode se encontrar. (Ele se lembrou: um dos seus antigos “casos”). Olhe, vou dar um jantarzinho aqui em casa hoje à noite e você está convidado. Tá certo?

– Ah, sim, com muito prazer (que chatice, ter de sair com essa chuva e esse frio!). Seu endereço...

            – Ainda é o mesmo. Ou você já se esqueceu? Lindóia, 45, apartamento 302, lembra?

Levar umas flores? Ou uma garrafa de vinho? O vinho é mais prático e mais barato. É só embrulhar.

            Ela o recebeu com dois beijinhos, toda amável. Meu Deus, aquele “avião” virou “isso”? Ele percebeu que a mesa estava posta apenas para dois. Estranho...

- Bem, quem são os outros convidados? Conheço algum?

– Ah, você nem imagina! O Beraldo disse que pegou um resfriado, o João Carlos teve de viajar de última hora, e a Beth está com a filha doente. De maneira que somos só nós dois...

            Ridículo! Afinal, jantaram, foram para a sala tomar um licor e aí, então, ele soube o motivo do convite. Ela se aproximou dele, toda manhosa, e tomou suas mãos. Olhando-o nos olhos, disse:

            - Relembro, com saudade, o nosso amor. O nosso último beijo e o último abraço. Desde então, Renato, fracassei. Não vou lhe dizer dos meus desenganos... Apenas você permanece como homem na minha mente.

            E ela, deslizando a mão do joelho para cima na coxa dele, fitava-o com aquele olhar de mulher pidona. Renato pensou:

- Eta vida besta, meu Deus! Já quis demais essa mulher e ela amarrava demais a ‘perseguida’. A bem da verdade, sempre a comi muito mal. E hoje, está ela aqui toda oferecida, e eu nem trouxe o meu Viagra. Há muitos anos que não confio no meu ‘rapazote’. Mas pode ser que funcione! 

            Por dever de másculo ofício, ele deixou-se “sarrar” e, preguiçosamente, foi sentindo alguns vagidos na parte que importa. Tiveram uma relação. Ela, eufórica. Ele, temeroso. Logo depois, como é hábito dos machos da espécie, ele deu ponto de ir embora. Ela, porém, enredou-o, oferecendo-lhe chá, café, chocolate, frutas. Renato juntou o resto de cavalheirismo que tinha e permaneceu mais alguns instantes. Passou a observar a decadência dos móveis, o desaparelhamento dos talheres e a pobreza geral do ambiente. Foi quando ele deu um vacilo:

- Como está a sua situação financeira, querida?

Duplo vacilo.

            Ela então destampou a caixa de Pandora. Fora bela e imprevidente. Fora pródiga e incauta. Acreditara sempre que a cornucópia da vida adulta se manteria nos anos da senescência. Estava ao desamparo, roçando a miséria. Renato era seu último possível amigo. Ela precisava de dinheiro para pagar dívidas urgentes e necessitava dele para sustentá-la. Aí ele teve o terceiro vacilo.

- De quanto você precisa?

Ela disse uma soma não muito alta.

- Vamos lá em casa pegar essa quantia. Ou melhor, junte suas coisas e venha passar uns dias comigo. Ando muito solitário. Só te advirto para não ficar falando demais...

E assim foi.

A sorte nunca vem sozinha. Três dias depois, Renato decide abrir seu computador. Lá estava o e-mail de Suzana, datado de dois dias antes. Dizia ter lido no jornal o anúncio de falecimento de Ambrósio, querido amigo comum, companheiro de juventude e de festas. Lembrara-se de Renato, tivera um presságio e queria estar com ele com urgência. Renato lembrava-se vagamente que tivera um longo affaire com Suzana, mas um ranço surgia sempre que se recordava dela. Algo se desacertara entre eles. Mesmo assim, teclou, convidando-a a jantar em sua casa, naquele mesmo dia. Ela não se fez de difícil. Confirmou seu comparecimento e veio escoltada por duas malas e uma valise.

O jantar transcorreu sob certa tensão até a hora da sobremesa. O vinho e a saborosa refeição exerceram sua propriedade de abrir o coração dos três comensais. Suzana também estava em situação financeira precária.

Ele decidiu acolhê-la. Seus cabedais acumulados durante décadas de prosperidade não seriam dilapidados por aquelas duas, restos decadentes de antigos amores viçosos. Havia ainda réstias de generosidade em sua pessoa.

            Dois dias depois, resolveu dar um bordejo pelo bairro. Foi quando deparou-se com uma mendiga. Havia nela alguma coisa de familiar. Quando ouviu sua voz solicitando-lhe uma espórtula, ele de imediato reconheceu: - Mariana!

Fora um mulherão nos alvores de sua mocidade. Cabeça leve, metera os pés pelas mãos depois de voltar separada do conde italiano que a arrebatara para Europa. De degrau em degrau, decaíra rumo a marginal da vida. Suja, desgrenhada e desdentada, Mariana era a própria imagem da desgraceira humana. Levou-a para casa, reparou o que fácil podia ser melhorado e ela se mostrou grata e feliz.

Agora eram três mulheres a lhe fazer companhia. Sentiu medo de ser invadido. Mulheres sempre querem tudo e muito o tempo todo. No entanto, elas eram idosas e foram vencidas pela vida. Comportavam-se como boas amigas e solicitavam pouco dele. Pareciam satisfeitas por estarem naquela soberba mordomia. A vida corria nos seus vagidos habituais quando Renato recebeu um telefonema de Bragança, colega e velho amigo. Anunciava que Mônica, mulher que ambos comeram durante quinze anos, estava mal no CTI de um hospital. Ela implorava vê-lo. Renato pensou: - Parece que todos os meus fantasmas eróticos resolveram me assombrar. Pelo sim pelo não, foi visita-la. Dois dias depois, ela foi removida para o quarto e cinco dias depois estava de alta hospitalar. Não tinha para onde cair morta. Conseqüência: mais uma para o redil deste vetusto senhor. As quatro logo formaram um aquelare, uma verdadeira confraria de bruxas solertes e benignas. Seu tititi cessava, de imediato, assim que aparecia o senhor Renato. Homem não gosta de conversa fiada. Ainda mais tendo sido psiquiatra...

Ele foi se acostumando com a presença daquelas que pertenceram ao seu universo de amores, de sexo e de bondade feminis. Sempre gostara muito mais de conviver no seio das coxas de suas mulheres do que no meio de seus pares na sala dos médicos...

E foi tocando...

Num vinte e três de novembro, a Associação Médica o destacou como homenageado. Não havia como fugir. No coquetel, encontrou Eliza: lindona, louríssima, botocada, rica, recém-separada e, como logo percebeu Renato, cheia de amor prá dar... Queixou-se de seu ex-marido, de que fora muito infeliz e guardava de Renato a forte lembrança de um homem que fora o melhor entre os noventa e sete que conhecera. Moravam no mesmo bairro. Ela passou a freqüentar a casa. Foi assim que o senhor Renato de Tal, as vésperas de seus setenta e nove anos, passou a fazer uso de meio Viagra pela manhã e meio Cialis toda noite. Aos domingos, descansava. Sempre tivera duas ou três mulheres simultaneamente, separadas para não dar confusão. Agora dispunha de um serralho de cinco mulheres ainda ávidas e desfrutáveis. Tratou logo de ir ao seu cardiologista para manter-se à altura de tão gentis senhoras. A felicidade batera nos corações destes provectos senhores. Era uma tranqüilidade: Cozia-se, lavava-se, enxugava-se, caseava-se. Tecia-se o bom da vida em manso sereno. Renato comprava as vitualhas e administrava aquela gentil comunidade. Sempre amável, paciente, ouvia as longas histórias que as mulheres precisam contar para se manter emocionalmente equilibradas. No entanto, era incisivo e bravo sempre que algo não lhe agradava.

Anita, uma vizinha, soube do cerralho que se formara na casa de Renato. Sempre fora secretamente gamada por ele. Tomou coragem e resolveu se apresentar. Renato a acolheu com simpatia. Agora era seis mulheres, todas queimando óleo setenta mas garbosas o suficiente para os lavores de Vênus.

Atendendo uma por dia, sobrava o domingo. Haja Cialis, pensou. Precisava preservar o seu biliu. Reuniu-as e propôs:

- Folgo as quartas-feiras. Saio e vou flanar por aí... Atendo com prazer as segundas, terças, quintas, sextas e sábados. Descanso no domingo, a exemplo de um antecessor. Assim, uma de vocês ficará chupando o dedo, em rodízio, a cada semana... Que tal?

Melhor que nada. Todas concordaram e o rodízio foi estabelecido.

Foi assim que seguiram aquele velho adágio: quem tem dá, que não tem recebe. E todos ficavam satisfeitos.  

Não sei dizer quanto tempo viveram nesse contubérnio. A confraria sabia que todos rumavam ou para o reino do alemão                   – Alhzeimer –, ou para os braços trêmulos de Mister Parkinson. A seguir, os encarava a caveira escancarada da morte. Sem ilusões nem esperanças fajutas de transcendências divinatórias.

Renato desfrutava de momentos íntimos, haurindo de cada uma sua delicia específica e especial.

Ele e elas aprenderam na oitava final da vida a viver e a se dar bem. Sem mistificações...               





PAR


Dançando contigo esse bolero

Sinto que tomei decisão com acerto

Quando suas mãos macias num aperto

Despertou em mim os vagidos do “eu quero”.


De revolteio, tudo girou em desacerto

Eu te cuidando com esmero

Você na sua, se guardando do asserto

Nós inembriados, dispostos a sair do zero.


E a noite bem transcorreu em descoberta

Teus seios levemente esmagados

Num abraço manso, forte e certo.


No espelho defronte nós nos flagramos

Mergulhando no doce quente inferno

De nossos corpos indóceis e frementes.


- Você é muito viada,

Disse-lhe eu num assomo de intimidade.

Você logo tensa, assustada,

Para mim sorriu com constrangimento.


- Que queres de mim, oh ser galante

Que me acaricia e logo me ofende

Como se estivesse entreabrindo, vibrante

Minha flor, meu opérculo, minha frente?


E eu impávido, atrevido, metido:

- Quero tudo, você, suas coisas fundas

Lábios, viscosas, muco, tudo...

Num assomo de animalidade hiante.


Comer-te é pouco, pois me fascinas

Com tua voz de corça assustada

E com teu lombo que sob a veste

Destaca as curvas de suas delicias.


- Tarado! Grosso! ela me censurou

E mais se aprochegou 

Sinalizando que o festim

Sexual era para já já se desfrutar.  



DISCURSO PLENO


Aproveitando a sua fala,                                             
eu queria deixar colocado que,                                      
assim, a nível de reflexão,                                        
fazendo um corte epistemológico,                                
desenvolvemos um projeto de pesquisa                           
versando sobre o tema proposto.                                 

Pegando um gancho na sua fala
Eu queria pontuar algumas questões
Para deixar bem colocado
Nosso ideário psicoéticopatista
Que traduz o pensamento de nosso
Iluminado guru, uma vez que
Ele jamais leu um livro mas deu
Um dedo pela causa do povo.

Quero deixar bem claro                                          
que falo a partir de um lugar                                       
onde é possível visualizar                                                                   
aquilo que você afirma
como tendo muita coisa a ver.
Mas desejamos ressaltar um ponto:
a coisa não passa por aí...

É que, sabe?,
estamos num determinado momento
em que a gente estamos empenhados
num trabalho sério de cogitação
que redundou na concepção
de um novo modelo assistencial
baseado num novo paradigma
que nos permitiu reformularmos toda
uma estrutura viciada de atendimento.

Afinal, achamos que era preciso repensar
toda nossa relação anterior.
Daí, essa nova proposta
colocada dentro de um novo marco teórico
que pretende dar conta de nossas perplexidades atuais.

É com esse espírito
que trazemos nossa proposta de trabalho
para pensarmos juntos.
Sabemos que vocês têm cometido equívocos
mas são sujeitos perfeitamente recuperáveis.
Eu, por exemplo, sei que o coração de vocês não é esse...

Mesmo porque estamos convictos,
e vocês hão de concordar comigo,
que temos de desenvolver um esforço
para superarmos nossas diferenças heurísticas,
pois o que está em jogo
é um valor mais alto que se alevanta:
- Tudo pelo paciente!

E tome pipipi, bobobo...
Patati patata...




O AMOR


            O amor é algo revelado instantâneo, a partir da ávida ou ingênua procura que o amante faz. Ele é querido, ansiado, pré-concebido, antes de ocorrer. E assim, súbito, ele surge, aflora, revela-se. Como um objeto excitante, como um busílis, um pequeno objeto a. Tem o dom de penetrar, percorrer e tonificar as fímbrias do ser amante, dando-lhe uma sensação de urgência, de vida-a-ser-vivida-na-ponta-dos-cascos. O amor ouriça os sentidos. Eriça os pelos da epiderme. Bolina o

tesão. Vitaliza todo o corpo.

            O amor é o começo de todo enredo, aquele que determina o seguimento das coisas. Também quem mandou? ninguém manda. Você se capacita e pronto: um dia, se surpreende amando. Pode refugar e encerrar a questão. Se não, estará correndo todos os riscos vertiginosos de um parque de diversões. Vivendo o presente. Porque o amor só quer a emoção palpitante, no presente. Não cabe perguntar pelo futuro, garantir perenidade, tornar-se segurança, responsabilidade, instituição. Vale o vivido. O sentido. Em todos os sentidos. Só. O amor não quer saber de romantismos. Debocha de amarras, de compromissos, de certezas. Ele só quer é mais amar. É terno. Anilzinho.

            Ele me faz ficar hirto, teso, de atalaia para suas insurgências e surpreendentes possibilidades. Ele me diferencia da banalidade do cotidiano. Faz sentido, ultrapassando a constante charlatanice da realidade.

            Tem por lema uma quadrinha mineira:

                        “Aceite o pouco que o amor te envia

                          se mais tivesse, mais te daria.” 

            É avesso às exigências, requisitos, reclamações e cobranças: ácidos que o corroem vorazmente.

            O amor é aquilo que fere a corda e a faz vibrar, musicalmente. Usa, lambuza, vira ao avesso, bota de quatro aquilo tudo que estava belo-adormecido. Escandaliza. Arromba. Viola. Ultrapassa. Rompe as miseráveis barreiras repressivas bem comportadas da neurose. Nos arremessa ao encontro da coisa sexual.

            Exige que eu cresça; amor é brincadeira de adulto. Não cabe a inocentes, puros, virginais. Quer que eu desça do pedestal do idealizado infantil, que me descentra e me coloca lá adiante, no futuro: o bom distante de mim, sempre. O amor não tolera isso: ele me quer cambono de mim mesmo, entidade pulsional a cavaleiro do meu próprio corpo, diabólico, com a espada em riste, na mão. Pronta para enfiar no dragão. Ou em coisa mais fofa.

            Quer que eu aceite as coisas como elas são: o meu amor como ele é: feio, brega, aprontador ou recatado, elegante ou escrachado, conveniente ou não.

            Dói. Amar dói. Uma dorzinha danada de gostosa. Às vezes, uma dorzona. O amor é no agora e no tesão. É um passaroco louco que se desloca caprichosamente, no arremedo de minhas boas intenções e de minhas conveniências, ao sabor do meu voto, do meu wunsch e que é encarregado de revestir meu objeto amoroso de uma mais-valia, de um excedente de delícia. Cada qual tem seu código pessoal para acionar o comutador que deslancha esse prazer. Às vezes isso é tão mutável quanto uma mariposa. Ou um beija-flor. E é tão desacorçoante que pode levar o sujeito à sem-vergonhice e à descaração. Ou à loucura. Ou então, atingir aos mais altos e sublimes registros da vida erótica. Às vezes, pode-se escolher.

            O amor não admite hesitação, além de um discreto charme no jogo de cena. Seu tempo é apocalíptico: agora! Sua lei é aquela que vigorava na antiga BR-3: – Ou dá ou desce! Não quer saber de puros, de inibidos, de virgens, tímidos ou despreparados. Mais que tudo, amor cresce de todo lado: se faz amor ao amar. Fulgura.

            Só dura se administrado com competência.




Dama



You are my sunshine.

Ando meio Blue and sentimental

Tenho certeza que você faz parte do meu show.

What´s new? The nearness of you. Tenderly.

Mas também quem mandou eu brincar com uma

Sophisticated lady?


Just you, just me: just a gigolo.

You look good to me, mergulhei numa Lush life.

envolto em Nica´s dream, feliz como Nancy with the

laughing face.


Imerso In a mellow tone. eu me concertei em você.

Pronto: acabei bewitched, bothered and bewildered.

Você penetrou under my skin.

(Agradeço-lhe por existir e rezo: Oh! Lady be good.)

Vivo num clip sem nexo, meio Body and soul.

meio Bossa Nova e rock n´roll.


Passamos a viver freneticamente: Stompin´at the Savoy,

ao som de Django: Nuages, Topsy, ou de Porter: Too darn hot.

Ben alertou: Mas que nada, o sumo é o trigo do Oscar

Peterson: Wheatland,

Waltzing is hip, It ain´t necessarily so.


Já nos tostamos sob o Caribbean sun, onde aprendi a desejar

One for my baby (and one more for the road).

O fato é que I´m old fashioned e, de há muito deixei de ser

Young and foolish.

All of me ainda quer viver contigo um April in Paris,

dançando, envolvidos, num Cheek to cheek.


A gente vai levando,

ora Begin the beguine, ora Cocktails for two.

Mas sempre imersos em Fascinatin´ Rhythm.

É essencial sentir que somebody loves me,

flanando ‘Round midnight  até, por vezes, me sentir

Perdido.


No entanto, Sometimes I´m happy.

Mas quem mandou não lidar devagar com a louça?

Não é desculpa dizer que eu não conhecia - Misty.

Witchcraft – a moça.


Vago na lua deserta das praias do Arpoador.

Louvo seus trinta anos blue, minha Satin doll.

You go to my head, a tal ponto que não tenho pejo de

I´m Confessin (that I love you).


É por tudo isto que não cessamos de Makin’ Whoopee.

Indo fundo no fundo do fundo.

            Mas só se for por você...

  


  

Fêmea, feminino, mulher.


                       Honrai as mulheres!

                      Elas traçam e tecem

                      Rosas celestiais para a vida na terra;

                     Trançam os laços beatíficos do amor,

                     E na graça dos véus de seu leve recato,

                     Com mãos abençoadas animam, vigilantes,

                    O fogo duradouro de belos sentimentos.

                         

 (Schiller – 1759-1805 – In Poesias:  “Dignidade das Mulheres”)


A natureza houve por bem evoluir para células dotadas de núcleo, onde se dispõem o patrimônio genético e o autopoiético das células. Criou os gametas ou células germinais, haplóides, que têm metade do patrimônio genético das células diplóides que constituem o organismo. Células sexuais são, portanto, haplóides. Células provenientes de um macho buscam e encontram células fêmeas para formar o zigoto ou ovo, que dá origem ao desenvolvimento de um novo ser vivo.

Sexo. Sexualidade. A natureza criou a divisão sexual para que pudesse haver diferenciação, evolução, complexificação e  variedade de  vida. Ou,  na  visão bíblica: “ Macho e fêmea os criou”. Em 1975, a ONU instituiu o “Dia Internacional da Mulher”, em homenagem a essa especial metade da humanidade.

Mulher é femealidade: contornos curvilíneos, adiposidades, maciez, passividade, submissão, procriação. É feminilidade: doçura, receptividade, acolhimento, ternura, capacidade de sustentar longas tarefas. Beleza, charme, sedutividade.

Mulher é fêmea: significa receber dentro de si o apêndice do macho, sustentar os embates do coito. Gozar, ao ser possuída, possuindo.

Mulher é mãe: gesta, gera, pare, amamenta, acalenta, cuida, nutre, sustenta. Primeira e última instância. Atávica, mucosa, viscosa, encarnada. Mãe é fruição em tempos largos. Gostosos e ressarcidores.

Mulher é companheira. Doce, meiga, amiga, compassiva, estimuladora. Capaz, sensitiva, intuitiva, séria, empenhada.

Mulher é deusa. Formosura, encanto, mistério. Alvo da cobiça e do desejo masculino. Inalcançável, no entanto, sempre à mão.

 Mulher é boa. Como primeira educadora da humanidade, é o leite da bondade da mulher que mitiga a fome,  a miséria e a fúria da condição humana.

A mulher é centrada em si mesma: ela é, apenas em si, fundada em seus ciclos biológicos naturais.

A mulher é toda. Completa, integrada, inteirada. Natureza natural,  cíclica, estável em sua instabilidade, a mulher é base, jazigo, fundamento, raiz e porto; posto de sustentação afetiva e base de abastecimento nutricional. Ela sabe que não há livre-arbítrio: o ciclo menstrual, o ritmo inflexível da procriação são condenações estabelecidas pela natureza.

Mulher? A dama é móvel, mutável, inconstante. Assim também entendeu Verdi:*

                            La donna è mobile

                                     Qual piuma al vento

                                      Muta d’accento

                                      E de pensier.

                                      Sempre un amabile

                                      Leggiadro viso

                                      In pianto o in riso

                                      É menzogner.

 A mulher pode ser terrível: Górgona, (Medusa), Medéia, Moira, Nêmesis, Megera. Ou maravilhosa: as três Graças Aglaia (brilho), Eufrosina (júbilo), Tália (florescimento).

Ela é a fabricante primeva. Dá e sustenta a vida.

Mulher torna-se, faz-se ao longo dos embates eróticos na novela romântica do envolvimento com o homem. Ela vai, ela vem, em um circunvolteante vir-a-ser, até que encontra um homem que a faça ser.

Qual o desejo da mulher? Tornar-se mulher, talvez para ser descoberta e colhida por um homem. O que quer a mulher? Vir a ser mulher. Desejada, amada, colhida pelo homem que ela escolhe para ser seu. A mulher deseja, tal qual o homem, possuir a liberdade de escolher os caminhos que melhor lhe convém.

Nela tudo é emoção, afeto, sensibilidade, coração, até quando usa a cabeça e lida com a razão.

As mulheres são as primeiras educadoras do gênero humano. Domesticam e civilizam – ensinam civilidade aos brutos homens.

Uma civilização se gradua pelo modo como dá atenção, decência, consideração e oportunidades de realização às suas mulheres.

Mulheres amam o amor. Amam serem amadas. Amando, são mais lassas, mais enfunadas e mais fiéis.

Mulher espera. Parece boa. É boa. Caridosa. Compassiva. Gentil, amena, solidária.

A mulher é toda. Ctônica. Cresce por dentro, por intussuscepção. Um corpo que é um facho sexual todo erótico.

A mulher é contínua, tátil, indireta, enviesada, tergiversa, envolvente. Vive em lalarilá: em rêverie. Vaporosa. Diz não!, dizendo sim.

Ela sabe que o homem é quem quer. Ela é apenas uma mulher. Mas a chave da concessão do ato é dela .

Para ela, a atração é sutil, mágica que aciona seu afeto, estação de passagem obrigatória que pode desembocar no sexo.

A mulher é o sexo frágil.

A fragilidade é uma arma poderosa.

A mulher é o sexo forte: dotação cromossômica sexual completa: XX. Detém patrimônio genético completo. Vive mais 5 a 7 anos que seu homem.

Ela é mais competente no campo afetivo.

Suporta melhor as dores, as decepções e os reveses da vida. É mais resiliente aos azares da existência .

Possui inteligência verbal muito superior à do homem.

Goza toda. Orgasmo longo, extenso, absoluto. Goza mais subentrantemente.

É superior no amor, mais sofisticada eroticamente que o homem.

Elas têm filhos e cuidam deles. E isso é uma grande garantia para a perenidade da espécie humana.

  Mulher é acolhimento, gestação, generosidade, compassividade. Cuida dos filhos com dadivosidade. Terna, doce, amena. Macia, fofa, confortável, sustenta as fúrias e a estupidez das pulsões humanas.

Possui uma inteligência emocional que a capacita a resolver bem as conflitantes situações humanas. São tolerantes, dedicadas, sabem perdoar. Possuem uma inteligência súbita, abarcante, intuitiva, que é um espanto.

Instruídas pelo estrógeno, o hormônio do recolhimento e da generosidade exercida em dadivosidade a fundo perdido, as mulheres são habitualmente seres melhores que os homens.

A função-mãe estabelece os alicerces da sociedade. A função-pai disciplina e normatiza a civilização.

Homem? é sujeito que gosta de mulher.

Mulher? é a segunda melhor metade da humanidade.

Mulheres são as guardiãs do lar. Esteios da família.

A mulher vem-se apropriando de sua vertente masculina, o que permitiu que saísse da situação depreciativa que a onerou durante milênios.

Dois terços das citações bíblicas e das referências dos autores clássicos são denegridoras da mulher. Isso traduz o medo e a ignorância do homem sobre as potencialidades de sua mulher.

Mulheres têm a mesma capacidade de julgar, acertar e cometer erros que os homens. Agora que elas conquistaram quase as mesmas experiências do mundo e os mesmos contatos com as coisas da vida, demonstram ter capacidade de realizar trabalho eficaz e de operar negócios com talento. Desde que tenham as mesmas oportunidades e acesso ao mesmo treinamento. Brilham nos salões da sociedade e podem acrescentar uma visão de qualidade humana quando ascendem ao governo.

Problemas ?

O arrocho financeiro que todos vivemos no Brasil.

Existem 35 milhões de mulheres no mercado de trabalho.

O maravilhoso mundo da liberdade, do trabalho e da realização masculina, tão desejável, existe e é penetrável, mas não é tão gratificante quanto parecia.

O brilhante mundo masculino é extremamente desgastante. Mulheres são ingênuas no que se refere à experiência existencial. Incautas, acham que podem fazer tudo simultaneamente.

Assumiram carga extra de trabalho e de encargos:      

·         Tripla jornada de trabalho.

·         Dúzias de tarefas e de desempenhos.

         Em razão disso, surtam de pura exaustão.

Muitas, tolas, impõem-se uma coreografia louca de Plástica – Dieta – Ginástica – Cremes – Salões – Moda – Mensagens – Viagens.

A mulher se tiraniza para permanecer bela, jovem, desejável  e busca atingir um ideal de beleza, que é contrário à tirania de seu corpo. Por fim, descobre que:

· o amor é decepcionante;

· a vida profissional é uma canseira;

· a velhice é uma perseguição renhida da qual não há escape;

· o homem não é aquele seguro farol de referência que ela, pressurosamente, supôs;

· os filhos são agressivos, ingratos e vão embora.

Assim surgiu a inquieta e infeliz, agressiva e neurótica mulher moderna, buscando, caoticamente, “seus direitos” e, avidamente, “sua felicidade”, que se lhe escapam pelas rugas e pelos dedos, a cada ano que passa.

Com tudo isso, ainda assim, macho a que estou condenado a ser, digo: “Mulher é a única coisa que presta nesse mundo desmastriado”.

            Mulher é rosa: Muito mais feliz na terra é a rosa que destilar se deixa do que quantas no espinho virgem crescem, vivem, morrem em sua solitária beatitude. (William Shakespeare. Sonho de uma noite de verão. [1595-1596]. Ato I, Cena I: Teseu).



Macho, masculino, homem


            A masculinidade é formação reativa ao horror de ficar capturado no pantanoso regaço ctônico da deusa-mãe. A dependência que o menino sente dos carinhos e dos cuidados de sua poderosa mãe estabelece uma vivência de conforto que instala o menino na placidez do contato excessivo com a figura feminina.

            Então, a certa altura, entre um e cinco anos ou o menino sai fora desse comodismo e vai se haver sozinho, descobrindo e se deslumbrando com o mundo, metendo-se em interação com a pluralidade de objetos de transição e com os objetos de relação que o mundo lhe oferece ou... Ou permanece comodamente empoçado na lama de ser aquilo - aquele adereço que a mãe sempre lhe quis.             Um brinquedo, um phallus, um adorno que a condecora como mulher capaz de ter gerado e parido uma criança com apêndice peniano: “uma gracinha da mamãe”.

            O menino não tem licença para desfrutar os tempos largos que sua irmã usufrui, sem prejuízos e com vantagens. Não. O menino tem que se safar desse embondo, sair do colo da mãe amada, fugindo como o diabo da cruz e se construir, na marra, no muque. Com o pouco de hombridade que tem, deve amassar o barro da fabricação de sua masculinidade.

            Tornar-se macho para não ser mais o “filhinho da mamãe”. Vira então homem, precário, bruto, mal acabado, torpe, para fugir ao horror de permanecer indiferenciado, efeminado, agarrado na barra da calcinha da mamãe.

            Homem assim o é por ter assim se tornado em função da formação reativa contra os horrores da captura na feminilidade básica.

            Homem não tem licença para ser feminil. Tem que mostrar serviço no árduo âmbito da masculinidade. Ser macho é uma fuga constante dos chamamentos da mãe sirênica. Homem nem pode dar vacilo...

            Portanto, a mulher é, toda, pronta, inteira, absoluta. Homem tem que se tornar macho-masculino-homem. E mais, a cada dia de sua existência tem que se manter como tal. Não é fácil. Fé que não é. Ser homem hoje já não é um bom negócio. Daí, tantos jovens com menos de 50 anos que ficaram aderidos na estação intermediária, mais cômoda, da homossexualidade.

            Bem mais fácil é permanecer grudado ao universo feminino, na indiferenciação gentil da efeminização. Ou então diferenciar-se apenas ao ponto de poder mergulhar no alegre mundo dos homens que tem fissura por outros homens, aqueles que tem filia por homens com fâneros e ademanes de homens homossexuais.

            O masculino está sempre às bordas de deliquecer. Vive sob ameaça de derreter-se na regressão mais barata, que o seduz, oferecendo-lhe colo, aconchego, tempos largos de fruição descompromissada das relações com as coisas mais custosas do mundo. O masculino só tem uma aposta positiva: é juntar seus parcos atributos e ir adiante, andar pra frente, sair de si e meter-se, comprometer-se, com a relação com os objetos presentes no espaço externo.

 As coisas estão no mundo, morena.

 É que eu preciso aprendê-las.

A sustentação do macho é objetal, externa, social, relacional. Ele é um coisa/objeto em relação ao outro.

Ele foge da refusão simbiótica, sempre proposta pelo poço ctônico da indiferenciação com o qual a mãe constantemente o convida.

A sustentação da fêmea é basal, jazigo, instalação estática e absorvente.

Toda mãe é capturativa: cinóica, cináica. As mães podem ser abandônicas, depreciativas ou rejeitantes. Outro tipo de mãe devastadora para o filho é a superprotetora, invasiva, super solícita, que sufoca o filho com um excesso  lodoso de solicitações e de ofertas.  Tais mães cenosas, formadas da lama, provém do lodo e da sujeira de super bem mal querer. Mãe imunda, suja, obscena, lodosa, lamacenta, ctônica, pantanosa, adesiva e capturante. Aquela que está empenhada em fazer o filho fracassar e morrer.

O filho homem tem que se afastar rápida e fobicamente da mãe Medusa, mãe fatal, evitando ser enredado no matagal da natureza. Aquela que dá a vida também pode bloquear o caminho da formação da identidade masculina e da sua liberdade. Mãe mulher leva à captura, à infantilização física e emocional.

Os homens expulsos de mãe estão obrigados a vir a procurá-la, de novo, mais tarde, por meio do sexo. Então mergulham no abismo que o acolhem: o infantilismo do heterossexualismo  masculino. A liberação sexual nos trouxe um presente caótico. Sexo é atolamento na mãe natureza. Homens são pobres diabos deserdados do colo da mãe, trêfegos transeuntes pelas amplidões sem descanso do mundo. Ermitões destituídos do termo aconchego, voltam para a natureza natural bruta e áspera. Partem para a selva da vida, metem-se na luta pela sobrevivência, desejam desfrutar todo o prazer – ilegítimo, legítimo, decente, indecente – intempestivo ou inconveniente que estiver ao alcance de seu braço e de seu pênis. Sim, pois macho possui uma insígnia encoberta, escondida: seu pênis, seu membro viril. Assanhado, instilado de testosterona, endurecido, é ele quem quer e que faz acontecer.

Daí o paradoxo do masculino. A cabeça de cima orienta-se pelo claro olho solar apolíneo do intelecto ocidental masculino. Visa a objetividade reta, direta, objetivada, lúcida e arguta. O macho é assertivo, incisivo, cortante, penetrante, invasivo. Criativo e criador de cultura.

A cabeça de baixo, por sua vez, monócula e esguichante, imperativa e monotemática, ela só quer “aquilo”: o coito, o bis coito... Não pensa: invade e impõe. Não protela: quer já, agora, de qualquer jeito. É bombeador e bombástico. É a irrefletida cabeça de baixo quem comanda o espetáculo.

Ao homem macho masculino cumpre juntar seus componentes – parcos e precários recursos –, e ir adiante, sair de si e meter-se com o alvo explícito de seu querer forte e, transitória e compensatoriamente, mergulha nas farândolas, nas mixórdias, nos embondos das coisas todas do mundo dos objetos externos.

Alguma coisa lá sempre encontra: pedras, trigo, barro, leis, cidades, dinheiro, ciência, arte, instrumentos, guerra, artefatos, dinheiro de novo.

Por ter colocado na testa uma tatuagem: “Eu quero é rosetar”, e por não conseguir tanto, consola-se em “Contínuo querendo”, embora não obtendo. A não ser vasqueiramente. Então, contrafeito e emputecido, o homem edifica a civilização: cidades, leis, música, artefatos, arte, ciência. Ainda que quase sempre, depois, quase as destroem.

O bicho homem é um mamífero dentado perigoso. Sem contensão, sem peias, torna-se descomedido e mau: mortífero, assassino. E sempre ladrão quando pode...

Só é bom sob comando de um poderoso superior. 

Em seu coração cabem varias mulheres. Cada uma com seu sabor e especificidade. Ama uma, transa com outra. Ginasta chinês, opera com várias. As atende por um momento, sempre pouco e mal. Deixa a desejar. Não é romântico. É direto, claro, explícito. Agrada, mas não é essencial. O que o atrai é perceber que a mulher é e está receptiva à sua intrusão como macho. Homem quer mulher que dê, que dá para ele. O que vier a mais, é lucro.

Homem quase não funciona com ideais e idealidades. São toscos, pouco sofisticados, querem aquilo e só. Ou quase que só. Homem gosta de mulher que gosta dele. Tal qual ele é. Sem tirar nem por. Já disse e repito – homem não dá conserto. Jamais existiu cavalheiro andante, príncipe encantado. Homem perfeito é ficção. E terrível para as mulheres: homem maduro nenhum está a fim de realizar seus sonhos e seus ideais. Trair é termo forte e tão antiquado quanto corno. Ciúme e possessão são venenos na relação.

Quer o sexo, o coito. O orgasmo é seu acme. Depois do orgasmo é um desgastado, sem graça, uma bola murcha que quer duas coisas: dormir ou ir embora.

Homem não é fiel. Está com você e com mais sete. Péssimo ator, desdobra-se em fingir que só tem olhos e só quer você. Qual o que / com seu terno mais bonito / quando sai / não acredito / quando diz que não se atrasa. O fato de ficar olhando as saias, as coxas, o decote, a bunda é que configura, para vocês, o mal caratismo, a postura cafajeste do homem. No entanto é o cafajeste que atrai sua concupiscência. Exclusividade de parceria sexual é uma invenção que puseram na cabeça das mulheres. Não existe homem fiel, já disse. A não ser forçado com cadeado nas ventas e acorrentado por mulher possessiva e paranóica.

Homem quer e precisa de várias. Precisa de novidade. Quer excitação. Homem não dá pelota para maquiagem ou escultura do corpo feminino.

Minha amiga, se eu fosse você, eu só dava pra mim.

Minha amiga, sou homem bom e, as vezes, até te amo. Sou cheio de pequenos e não consertáveis defeitos. Se você for esperta, se ajeita comigo e dê graças a mim e a nós dois que nos amamos um tanto, um pouco.

Todo homem é um galinho...            E terrível: já se vislumbra um futuro próximo em que cada homem deverá atender a várias mulheres porque a hombridade e a testosterona estão se tornando escassas...







* Maiêutica é o método socrático que consiste em formular uma sucessão de perguntas, induzindo o interlocutor a descobrir suas verdades ou obter uma conceituação mais adequada acerca de um objeto ou de um tema. Por meio desse método, Sócrates conseguia que idéias mais apuradas fossem “paridas” no curso de um diálogo.
* João Bosco e Aldir Blanc. “Foi-se o que era doce”. LP Canto dos homens. MPB4. Rio de Janeiro: Philips, 1976.
* *  João Bosco e Aldir Blanc. “O cavaleiro e os moinhos”. LP Galos de briga. Rio de Janeiro: RCA, 1976.
* Verdi. Rigoletto. Ato 3. “La donna è mobile.”

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